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A Impossibilidade da Reencarnação

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A Impossibilidade da Reencarnação

Sr. Francisco Xafredo

Em todos os símbolos da antigüidade, em todos os mistérios religiosos, em todas as reminiscências que se projetaram através da imensidade dos séculos, encontramos, como base de toda iniciação, o arcano da correspondência ou da analogia que existe entre todas as coisas da terra e do céu, isto é, encontramos a afirmação de que a forma de todas as coisas naturais deve ser semelhante à forma de todas as coisas espirituais.

Entre os magos antigos, este arcano estava sibilinamente gravado nas célebres tábuas de Esmeralda de Hermes Trimegisto e, quando os iniciados transpunham o limiar do Templo, segredavam-lhes aos ouvidos as palavras misteriosas ali gravadas: "Todas as coisas que estão em baixo são iguais às que estão em cima, para fazerem uma coisa só".

Na oração Dominical, oração legada por Jesus aos discípulos, base da religião cristã, destacam-se as palavras: "Seja feita a Tua vontade tanto nos céus como na terra".

Nossa impossibilidade de atingir, com instrumentos organizados para atuar no mundo material, as coisas do mundo espiritual, é evidente, mesmo porque nossos sentidos grosseiros não conseguem perceber muitas coisas relacionadas com a matéria, havendo fenômenos que escapam ao conhecimento dos estudiosos.

Temos, pois, necessidade, enquanto nossos sentidos estiverem obscurecidos pelo véu material, de admitir a hipótese de um outro mundo, para dar coerência a este e tentar explicar o inexplicável. 

Admitamos, pois, a hipótese de um outro mundo como causa criadora deste, sendo, portanto, este um reflexo ou projeção do outro. Admitamos a existência de um mundo que seja o habitáculo e a sementeira das afeições, dos pensamentos, da consciência, enfim de todas estas coisas que incontestavelmente existem e que ainda não puderam ser isoladas da forma em que se manifestam.

É racional presumir que, sendo este mundo um reflexo ou projeção sensível do outro, todas as formas do outro se cristalizam neste e é lógico admitir que as coisas que se encontram neste devem ser semelhantes às do outro.

Ora como todo efeito participa da causa, conhecendo nós os efeitos poderemos presumir-lhes as causas. Desde o momento em que analisarmos com critério as coisas que se passam na terra, encontraremos por correspondência as que se passam nos céus.

O bom senso nos dita que é muito mais lógico admitir a ordem e a harmonia em todos os métodos da criação do que admitir a desordem e a desarmonia (que resultariam em destruição).

Não é, pois, possível admitir o desenvolvimento de fenômenos espirituais sem guardarem harmonia ou correspondência com o desenvolvimento de idênticos fenômenos materiais.

Admitido esse postulado, analisaremos várias doutrinas que aceitam fenômenos de reencarnação, quer ele se realize no mundo das causas, quer se realize no mundo dos efeitos.

Faremos o exame do assunto à luz clara das correspondências.

Estudando o fenômeno na terra, encontramos logo a impossibilidade da retroatividade. Nunca o conteúdo voltará a ser continente, nunca a árvore voltará à semente de onde saiu nem o pinto voltará à casca do ovo que despedaçou. Como poderá um ser determinado e completo, com forma definida, transformar-se em um ponto indeterminado para voltar ao ventre materno ?

Um espírito é uma semente divina lançada no meio que lhe é propício, para tecer gradativamente o invólucro apropriado, que lhe deve servir para seu desenvolvimento adaptando-o à sua evolução, até fixar um tipo na harmoniosa variedade do infinito de seres, conforme a liberdade que o Criador lhe permitiu e conforme a lei universal da criação.

Assim, esta semente, que traz impresso o selo divino da Imagem e Semelhança de Deus, desenvolve-se e cresce, passando pelos vários graus desde a infância até a virilidade, de maneira a fixar um ser completo e um tipo definido.

Se, por contingências atinentes à deficiência da matéria em que foi inserido o espírito, lhe venha faltar essa base material, seja por taras dissolventes de matéria ancestral, seja por ações premonitoras providenciais, aniquilando prematuramente o corpo, o desenvolvimento do espírito continuará no outro mundo pelo impulso adquirido neste.

O espírito ficará sempre, depois de criado, um ser integral e definido, quer se complete no corpo terrestre, quer abandone o corpo prematuramente. Não é um gás qualquer que se possa comprimir ou dilatar, nem um fantasma sem forma.

Como admitir que um ser assim completo possa voltar outra vez às trevas genéticas do ventre materno, depois de Deus ter dito: "Façamos o homem à Nossa Imagem e Semelhança?" (Gênesis 1:26) e de ter visto que tudo quanto fizera era muito bom? (Gênesis 1:31).

A doutrina da reencarnação é uma doutrina que reduz o espírito a zero, fazendo-o voltar à situação de gérmen, para mergulhar novamente na treva embrionária e ressurgir em novo corpo, com vida nova, novo nome, novas afeições e novos pensamentos, até revestir-se de um invólucro material que se torna a pele de um cordeiro sem mácula, quando, então, cessa de reencarnar-se.

Eu, por exemplo, teria sido troglodita, escravo romano, oficial de exército bizantino, frade capuchinho e, remontando, no tempo, teria sido espírito de jacaré e de chimpanzé, cana verde, pedra-pomes e até poeira sideral.

Depois de tantas modificações, onde vamos encontrar a imagem e semelhança do Criador? Diante de tanta alteração para chegar ao ser humano, a semelhança com o Criador é irreconhecível. O livre arbítrio relativo do homem corresponde à Onipotência Divina, embora num grau finito. Pode-se aceitar o livre arbítrio do homem se ele nem sabe quem é realmente?

Como conciliar com a teoria da reencarnação a responsabilidade que compete a um ser cuja diferença única, mas incomensurável, dos outros animais é a consciência livre de sua existência e, portanto, de sua inconfundível individualidade?

Segundo tal teoria, um assassino deve voltar a este mundo para ser assassinado. Para isso, é necessário encontrar outro assassino e, assim, indefinidamente. Isso seria multiplicar o mal e transformar uma lei de retaliação em dogma espiritual. Isso seria, em vez de preferir a linha reta da responsabilidade, escolher a linha curva da circunferência, que aprisabilidade, escolher a linha curva da circunferência, que aprisiona sentimentos negativos.

Se a criação da vontade e do entendimento no homem, criação absolutamente diferencial de ser para ser, constituindo sempre uma individualidade inconfundível, fosse um entretenimento do Criador, para mais tarde refundir tudo de novo, poderíamos acusar o Infinito de falta de matéria prima para constituir as ligas necessárias à criação de novos seres humanos, o que seria um absurdo.

Um Deus que criasse um ser consciente e livre e depois lhe retirasse essa consciência e liberdade - características que são o cunho indelével de Sua Imagem e Semelhança - para o obrigar a nascer tantas vezes até atingir um tipo preconcebido obrigatório e único, seria um Deus contraditório. Se a liberdade estivesse parcelada em encarnações provisórias, ela também seria provisória e perderia a semelhança com o Criador.

Qualquer de nós, no íntimo profundo de nossa consciência, julgaria a alienação de nossa individualidade como um verdadeiro suicídio. A única coisa que nos faz existir é saber que somos uma consciência e uma individualidade. Seria possível aceitar o desdobramento de nossa consciência em inúmeras outras?

No dia em que eu soubesse que seria outro, já não seria mais EU, seria NINGUÉM, seria qualquer coisa sem consciência. E um ser sem consciência definida não é mais um ser, é um simples vegetal.

A semente reproduz sempre o mesmo fruto, sem nunca o alterar. Há milhares de anos que a semente de cedro produz o cedro e nunca o cipreste. Quando o homem tenta modificar o fruto de uma árvore, ela se torna estéril e parasitária. Para que viva e dê frutos, é necessário enxertá-la no tronco primitivo, mas os frutos assim produzidos já não contêm sementes...

Também o homem é uma projeção do Pensamento e do Amor Divinos, que o criaram de forma definitiva, com sua consciência e amor dominante, que sempre o acompanharão. Bom ou mau, eu desejo ser sempre EU MESMO e, se para me aperfeiçoar, for preciso ser OUTRO, o aperfeiçoamento não seria meu, mas do outro.

A teoria da reencarnação tende à dissolução da individualidade e, destruindo o livre arbítrio, dissolve o ser, estragando a criação. A variedade infinita dos seres humanos teria, segundo essa doutrina, uma finalidade uniforme, perdendo a razão básica de sua criação diferencial, e a grande harmonia desapareceria na grande monotonia.

Finalmente, não podemos, em face dos ensinamentos contidos nas obras de Emanuel Swedenborg, deixar de reconhecer que a crença na reencarnação é um erro de grave conseqüência. Essa crença é uma espécie de narcótico espiritual que priva aqueles que a adotam da energia indispensável para as lutas da regeneração. Certo de que disporá de outras oportunidades para libertar-se de seus males, o reencarnacionista não sente necessidade de combater, a todo custo, as suas más tendências, e deixa-se ficar no triste estado em que se encontra, embriagado pela esperança de que poderá fazer mais tarde o esforço que agora não se acha com ânimo de despender, para combater seus erros e vícios.

Assim, os membros da Nova Igreja devem prevenir-se contra essa crença, uma vez que ela retarda a regeneração daqueles que aspiram à vida eterna no céu.

Adaptado por J.Lopes Figueiredo

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