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A Doutrina Cristã examinada - Capítulo 6

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Capítulo 6 - A razão de haver a aparência de Trindade de pessoas na Bíblia

É um fato incontestável que a Bíblia, como se falou acima, traz uma quantidade considerável de passagens que dão a idéia de que existe uma trindade de pessoas. Além das passagens mais conhecidas e das que foram trazidas acima, tomemos como exemplo as seguintes:

"Ora, o Senhor, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu, e assentou-se à direita de Deus" (Marcos 16:19)

"Desde agora o Filho do homem se assentará à direita do poder de Deus" (Lucas 22:69).

"E disse: Eis que vejo os céus abertos, e o Filho do homem, que está em pé à mão direita de Deus" (Atos 7:56).

"Eis que chega a hora, e já se aproxima, em que vós sereis dispersos cada um para sua parte, e me deixareis só; mas não estou só, porque o Pai está comigo" (João 16:32)

Além de outras semelhantes, nas quais se constata que a idéia de pessoas Divinas é, de fato, muito marcante. Se fôssemos levar em conta somente passagens dessa espécie, não haveria outra conclusão sensata a não ser afirmar que existem, sim, duas ou mais pessoas Divinas. No entanto, como já se falou anteriormente, a Bíblia tem também o outro grupo de passagens que ensinam claramente a unidade de Deus. Várias dessas passagens já foram citadas também anteriormente e por isso não serão repetidas aqui.

E é por causa desse outro grupo de passagens aparentemente antagônicas que não podemos concluir quanto a trindade. E, como sabemos que na Palavra de Deus não há enganos, o que nos resta a fazer é procurar conciliar os dois grupos, que é o que temos procurado fazer aqui ao adotarmos o conceito de "atributos" e não de "pessoas", porque esse conceito pode conciliar perfeitamente esses dois grupos heterogêneos de ensinamentos e abre-nos a porta para a compreensão do que se chama de mistério Divino.

Mas voltemos às passagens há pouco citadas. Se Deus é uma só Pessoa, e se foi Ele mesmo que veio ao mundo revestido do Humano, então, qual a razão de haver na Bíblia as passagens que dão a entender diferentemente, isto é, a trindade de pessoas?

Existiram várias razões para isso:

Primeira. No Antigo Testamento, como já se falou acima, Deus JEHOVAH havia feito a promessa de que Ele enviaria um Salvador. Mas disse também, em várias ocasiões, que o Salvador seria Ele mesmo, já que não existe outro Deus e outro Salvador:

"Porventura não sou Eu, o Senhor? Pois não há outro Deus senão Eu; Deus justo e Salvador não há além de Mim. Olhai para Mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque Eu sou Deus, e não há outro". (Isa. 45: 21,22).

"Todavia, Eu sou o Senhor teu Deus desde a terra do Egito; portanto não reconhecerás outro deus além de Mim, porque não há Salvador senão Eu" (Oséias 13:4).

Por conseguinte, o Messias, Salvador, que nasceria de uma virgem como Menino e Filho, seria, ao mesmo tempo, o Pai e Deus:

"Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado está sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz" (Isaías 9:6).

Por isso, quando chegou o tempo da redenção, Ele cumpriu a Sua promessa, e fez gerar para Si um corpo em Maria, ao qual chamou Filho:

"E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus". (Lucas 1:35).

Aquele corpo, o aspecto Humano visível de Deus, passou a ser como uma vestimenta, uma morada ou um Templo para o Altíssimo, o mesmo Divino Ser, chamado JEHOVAH. Se não fosse por esse revestimento Humano, pelo qual adaptou e conformou Sua presença, a raça humana não poderia suportar Sua presença.

Mas, para que não houvesse dúvida de que Deus estava presente com os homens por meio daquele Humano, por isso Ele também disse:

"Portanto o mesmo Senhor vos dará um sinal: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um Filho, e chamará o seu nome Emanuel" (Isaías 7:14).

Profecia que foi dita estar cumprida no Novo Testamento:

"Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor, pelo profeta, que diz: Eis que a virgem conceberá, e dará à luz um filho, e chamá-lo-ão pelo nome de EMANUEL, Que traduzido é: Deus conosco" (Mateus 1:22, 23).

"Emanuel" ou "Imanuel" como Mateus explica, vem do hebraico "im" (com) + "an[ar]nu" (nós) + El (Deus). "Deus conosco" ou "Deus presente conosco". Ainda que o nome do Menino viesse a ser efetivamente outro, Jesus, o significado "Imanuel" era realidade: Ele era Deus presente conosco. Foi essa idéia sublime que João nos relatou mais tarde quando disse que Deus Se fez Carne e habitou entre nós.

Ocorre que, mesmo sendo Deus quanto ao íntimo, ou a Alma, o Humano tinha, no começo, as limitações de um homem, ou hereditariedades humanas provenientes de Maria. Por causa desse aspecto, Ele, quanto ao Humano, chamado Filho, pôs-Se em contato com a raça humana e suas imperfeições, lutou contra elas e as venceu. Embora tivesse a fragilidade humana e lutado contra os males, nunca se contaminou jamais com os males, pelo que era a expressão da Inocência mesma. Aliás, foi por Sua inocência que, quanto ao Humano, Ele foi chamado Cordeiro de Deus.

Havia, portanto, dois níveis de consciência no Senhor: do Ser Infinito, JEHOVAH, na Sua mente interna, Sua alma, e do Humano frágil, sofredor, chamado Filho do homem, em sua mente externa. O aspecto externo dEle, Filho, tinha perfeita noção de Sua inferioridade em relação à Sua Alma, e por isso Ele Se dirigia a esta parte de Sua personalidade com humildade.

Naquele Humano havia momentos de dúvidas, receios e aflições que O fizeram suar gotas de sangue no momento de maior angústia (Lucas 22:44), mas Ele sabia que tinha de Se sujeitar aos desígnios que Se propusera em Sua Alma, a saber, de levar a luta contra os infernos até o fim, triunfar sobre eles e assim redimir a raça humana.

Mas havia também, naquele Humano, momentos de exaltação, contentamento e comunhão íntima com Sua Alma, ocasiões em que Ele falava a partir da Alma, como já unida ao Seu Humano. Esse processo de união do Corpo à Alma, do Filho ao Pai, foi comparável à tarefa de purificação do templo que Ele realizou, expulsando dali os ladrões. Foi um ato real mas também simbólico, porque o mesmo processo acontecia também no Templo do Seu corpo, visto que expulsava gradativamente as insinuações infernais que O queriam contaminar. Vide, a respeito dessas tentações, Mateus 4:10, 16:23, Marcos 1:13 etc.

Como esse processo de glorificação ou de Divinização do Humano (Filho), pela Sua união progressiva com a Alma Divina (Pai), por isso lemos:

"Pai, glorifica o teu nome. Então veio uma voz do céu que dizia: Já o tenho glorificado, e outra vez o glorificarei" (João 12:28).

A glorificação era, como se percebe, uma alternação de estados de sofrimento e glória, humilhação e exaltação, luta e vitória. A morte na cruz foi a última tentação do Filho, o inevitável cálice amargo que possibilitou a completa remoção de toda a Sua fragilidade Humana, e Sua ressurreição foi a completa vitória sobre os infernos e os males de toda a raça humana. Por isso Ele ressurgiu no Humano glorificado, no Qual a presença da Alma era plena. Por meio de todo esse árduo processo, o Humano era agora Templo reedificado de Deus (João 2:21). Por isso, estava agora revestido de todo o poder que provém de Sua Alma, e por isso era o Todo-Poderoso também quanto ao Seu Humano (Mt 28:18). Assim foi que o Filho foi dito estar à direita de Deus, pois a "direita" representa o poder (Mt 26:24, Lc 22:69).

Esta explicação nos leva, por conseqüência lógica, à segunda razão pela qual existe na Palavra de Deus a aparência de duas ou mais pessoas, como se segue. Porque, quando compreendemos dessa maneira o desenvolvimento da glorificação do Humano do Senhor, chegamos à conclusão que são coisas não profundas e inatingíveis, mas um pouco complexas, sim, ligeiramente acima do que a reflexão humana comum está habituada. Portanto, somos convidados a fazer a seguinte reflexão: De que maneira todas essas coisas poderiam ser escritas no Evangelho, a não ser da forma como estão ali? Se Ele, ao Se revelar como Filho, já foi difamado e rejeitado pela mente incrédula de nossa raça, se já tivemos dificuldade de aceitá-Lo como Messias e Salvador, o que seria de nossa miserável crença se Ele Se manifestasse de uma vez como Deus? Poucos suportaram revelação tão grandiosa. Os discípulos, que viveram com Ele cada dia por quase três anos, só compreenderam isso com dificuldade. E quanto a nós?

Então, perguntamos: Como Deus poderia nos instruir a respeito de Seus aspectos Divino e Humano, a não ser assim, deixando que, aos poucos, pudéssemos nos acostumar com a idéia de que Ele era Filho de Deus, de algum mod instruir a respeito de Seus aspectos Divino e Humano, a não ser assim, deixando que, aos poucos, pudéssemos nos acostumar com a idéia de que Ele era Filho de Deus, de algum modo Divino?

Como poderia Ele nos levar a idéia de atributos ou níveis de Sua mente, se usar tipos figurativos de pessoas? Lembremo-nos de que a Palavra de Deus foi dada para a raça humana de mentalidades diversas, de todos os tempos, desde Moisés até os judeus, os cristãos primitivos, o homem de hoje e para todo o futuro. Como poderia Deus falar de Sua Vinda, Suas lutas e vitórias, da Redenção e glorificação de Seu Humano, sem usar um simbolismo que fosse compreensível por todos os homens de todas as igrejas e de todas as épocas? Somente por meio de tipos simbólicos simples, como alegorias, que podem ser desvendadas à medida que a mentalidade humana amadurece.

Não se espera que os judeus creiam em Sua Divindade, eles que não creram nEle sequer como Messias e Filho de Deus, e pegaram em pedras para apedrejá-Lo quando entenderam o que Ele lhes dizia:

"Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, Eu sou. (...) Eu e o Pai somos Um. (...) Os judeus responderam, dizendo-lhe: Não te apedrejamos por alguma obra boa, mas pela blasfêmia; porque, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo" (João 8:58, 10:30,33).

O que Jesus disse &quO que Jesus disse "Eu sou", os judeus entenderam muito bem, e por isso queriam apedrejá-Lo: porque "Eu sou" é o Nome pelo qual JEHOVAH Se deu a conhecer a Abrahão. Entenderam-no e disseram: "Te fazes Deus a ti mesmo".

Espera-se, porém, dos cristãos, que crêem na Sua Palavra, que Ele é Um com o Pai, Imanuel, o Primeiro e o Último, sim, espera-se que os cristãos de hoje cheguem à compreensão plena de Quem Ele é, Deus, e que a Trindade está nEle, e que não há três, mas uma Única Pessoa, o Senhor Deus Jesus [JEHOSHUAH}Cristo, que é o Nome glorificado do Deus eterno.

Porque - e esta é a razão vital - enquanto nós, cristãos, ignorarmos tão grandiosa verdade, estaremos apegados à decisão do concílio herético de Nicéia e nos afastando da crença da Igreja cristã primitiva, sua fase de integridade. O Concílio de Nicéia fez o cristianismo retroceder da visão dos apóstolos, da Divindade de Jesus, para a visão que tiveram anteriormente à ressurreição, com perigo de retroceder ainda mais, porque corrói o cristianismo a idéias cada vez mais materialistas e blasfemas de Jesus como um grande Mestre apenas, um Espírito iluminado, o filho de Maria.

Se ignorarmos que Jesus é Deus, estaremos condenados ao erro, porque Ele disse:

"Se não crerdes que Eu sou, morrereis em vossos pecados" (João 8:24).

Existe, ainda, uma terceira razão pela qual muitas passagens da Palavra nos evocam a idéia de pessoas.

Sabemos que foi dito na Bíblia que Deus é amor (I João 4:8). E quando esteva no mundo, como Filho, Ele disse que era a Verdade (João 14:6). Estas são, pois, as duas essências de Deus: Amor e Verdade. Mas não um amor qualquer e uma verdade qualquer, mas o Divino Amor e a Divina Verdade.

Temos aqui uma relação em que Deus (a Alma Divina, chamada Pai) é o Divino Amor, e o Jesus (o Humano, chamado Filho) é a Divina Verdade, e por ela podemos entender ainda melhor o aspecto da Trindade que há em Jesus Cristo: o Amor é o que está sempre no íntimo; a Verdade, a exteriorização ou manifestação desse Amor; e o que resulta daí é a ação, a operação. Eis aqui, portanto, uma outra maneira de se descrever a "Trindade" Divina: o Divino Amor, a Divina Verdade (ou Sabedoria) e a Divina Operação: Pai, Filho e Espírito Santo.

Conosco, também, existe uma imagem dessa Trindade, pois as coisas do amor (nossa vontade, nosso querer) são mais íntimas; as coisas relativas à verdade (nosso entendimento, nossa compreensão ou nossa idéia do que, pelo menos, nos parece ser a verdade) são relativamente mais externas; e da união de nosso querer com nosso entendimento, resulta nossa ação, nossa atividade, nossos usos. Nosso querer é "pai" em relação ao nosso entendimento, porque a vontade de aprender gera a inteligência.

A mesma relação existe entre o calor e a luz. O calor gera a luz e a luz é a manifestação do calor. O Pai é como o Sol e o Filho a Luz que procede para o mundo (João 8:12).

Esta relação entre o Divino Amor e a Divina Verdade sempre existiu em Deus, mesmo antes de Ele ter-Se revestido do Corpo natural. Antes de vir ao mundo, o Humano já estava em Deus e era Deus, conforme ele disse:

"E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse" (João 17:5),

e também:

"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus (João 1:1).

Mas o aspecto Humano de Deus não era ainda revestido do corpo material, e não teria sido necessário que Ele tivesse tal, se a raça humana não tivesse se distanciado dEle.

Esta era a Trindade que existiu sempre em Deus: a Essência Divina, do Amor, a Essência Humana, da Verdade, e a Operação que procedia daí.

Quando, porém, Ele veio ao mundo, Sua Essência Humana apenas Se revestiu dos elementos finitos e materiais tomados do mundo, a fim de efetuar, por meio desses elementos, a obra de redenção, e depois os Divinizou, pelo que a Essência Humana de Deus passou a ter um Natural que antes não tinha. Foi nesse Divino Humano no Natural que Ele apareceu aos discípulos, dizendo:

"Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede, pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho" (Lucas 24:39).

E foi a Esse Humano, Natural e Divino ao mesmo tempo, que Tomé chamou "Deus".

Se pensarmos dessa forma na Trindade Divina, poderemos entender corretamente todas as passagens das Escrituras Santas sem dificuldade, sem termos de deixar de lado qualquer uma, pois todas elas estarão em harmonia.

Tomemos como exemplo um dos versículos mais conhecidos da Bíblia, João 3:16:

"Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna".

Entendemos: A Essência Divina teve tão grande amor pela raça humana, que deu Sua Essência Humana, única...".

A Essência Divina enviou a Essência Humana, porque o Alma age sempre por meio do Corpo, e o amor se dá a conhecer sempre por meio de uma expressão da verdade.

   Continua>>

 

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