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Sermão: "Toma a cruz, e segue-Me"

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"Toma a cruz, e segue-Me"

 

Sermão pelo Rev. C. R. Nobre

 

"Uma coisa te falta: Vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres; assim terás assim um tesouro nos céus; então, vem, toma a cruz, e segue-Me" – Marcos. 10:21

Esta resposta foi dada por Jesus a um homem rico, mas este se entristeceu com o que ouviu, pois, como o Senhor disse, era muito rico e confiava em sua riqueza. Esta passagem nos serve para ilustrar aEsta passagem nos serve para ilustrar a dificuldade que temos, muitas vezes, para deixar de lado coisas que não têm real importância em nossas vidas, para recebermos as que realmente contam, pois duram para a vida eterna.

No diálogo, o homem disse a Jesus que havia guardado os mandamentos desde a sua juventude. É dito que, ao ouvir isso, Jesus o amou. O livro "Doutrina de Vida" nos diz que Jesus o amou porque aquele homem "tinha guardado os preceitos desde a juventude". Pois Jesus ama a quem guarda Seus mandamentos. É conforme Ele o disse em João 14:21: "Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele".

De fato, cumprir os mandamentos do Senhor é a única maneira que temos de demonstrar nosso amor por Ele. Podemos dizer palavras muito profundas e sinceras em oração, podemos falar a muitos de Seu amor, podemos entoar belos louvores... mas nenhuma destas coisas mostrará amor por Ele, se não cumprirmos os Seus mandamentos. Porquanto Ele também o disse: "Quem não me ama não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou. Por isso é dito que Jesus o amou’. (Jo 14:24).

O Senhor respondeu àquele homem rico, dizendo: "Uma coisa te falta". Mas, em seguida, ao dizer que coisa era essa, Jesus enumerou três coisas, três coisas muito importantes, mas que constituem uma só: o amor verdadeiro a Deus. Jesus lhe instruiu: 1) "Vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres..." 2) "então, vem, toma a cruz..."; e 3) "e segue-Me".

Examinemos primeiro o que Senhor lhe disse, para "vender tudo quanto tinha". Se quisermos compreender corretamente, precisamos olhar além do sentido literal. Será que Jesus estava Se referindo a bens materiais? Será que, para seguir Jesus, era necessário que aquele homem se despojasse de suas propriedades? Se assim fosse, por que, então, Jesus não fez essa mesma exigência a outros ricos que O seguiram? Zaqueu e José de Arimatéia e, mais tarde, Cornélio, são alguns dos exemplos. Se o Senhor estivesse se referindo à riqueza natural, não seria o caso de mencionar essa exigência também aos outros?

Então, é óbvio que o Senhor falava de um outro tipo de riqueza, a qual aquele homem não conhecia, porque a única que conhecia era a material. A "riqueza", entendida espiritualmente, são os conhecimentos do bem e da verdade (AR 206). São, portanto, todos os conhecimentos de que a pessoa se orgulha em possuir como seus, pois acha que adquiriu por sua própria inteligência, convicção ou mesmo fé. Nenhuma verdade e nenhum bem pertencem realmente ao homem. Por isso, quando a pessoa se julga inteligente, sendo sábia aos seus próprios olhos, é como se ela se apossasse de uma riqueza que não lhe pertence, mas ao Senhor. Dessa "riqueza" é necessário se despojar.

"Vender suas riquezas" significa, pois, abrir mãos de suas próprias idéias e sua própria bondade, porque são vãs. Significa desapegar o coração de todas coisas boas e verdadeiras que considera realmente suas, e atribuí-las à misericórdia e a graça de Deus.

"Vender" implica sempre uma troca. Dá-se uma moeda, algo de valor que se tem, e, em troca, recebe-se algo de que se precisa mais. Abre-se mão de um valor para se obter algo mais valioso, por ser mais verdadeiro e mais útil.

Essa "venda" ou troca de que falamos, pode ser uma troca de princípios ou de sentimentos. Se temos o hábito de pensar que nós é que fazemos, somos e sabemos alguma coisa, precisamos aprender a pensar o contrário disso: nada fazemos, nada somos e nada sabemos por nós mesmos, mas pela misericórdia de Deus. Fazemos uma troca quando descobrimos que pensávamos erroneamente e, aprendendo o que é o certo, mudamos de opinião.

É uma troca também de sentimentos. Abrimos mão de sentimentos, que descobrimos não serem bons, para adotar outros, realmente benéficos e úteis à nossa vida espiritual.

Durante toda a vida de nossa regeneração somos convidados por Deus a vender o que temos, isto é, a fazer essas trocas, a abandonar as coisas temporais e egoísticas, para adquirirmos outras, eternas e realmente humanas.

Sentimos a urgência de fazermos essa troca quando se trata de afeições más. Se constatarmos que temos no coração uma afeição má ou negativa por alguém, como um ressentimento, uma mágoa, uma inveja, um rancor ou um desejo de vingança, é disso que precisamos urgentemente nos despojar, para herdarmos a vida eterna. Muitas vezes, esses sentimentos são as únicas coisa que achamos em nossos corações, mas estamos tão apegados a elas, que nos parecem boas e justas. Se quisermos ser regenerados, precisamos "vender" tais sentimentos próprios, recebendo em troca, do Senhor, sentimento realmente honestos, portanto melhores, que irão fazer bem à nossa alma e à do próximo. O que podemos adquirir, quando desistimos desses sentimentos nocivos, é a tolerância, a paciência, o perdão, o amor mesmo para com o próximo. Isto é vender tudo quanto temos. "Vender" significa, pois, não ter apego ao nosso proprium, e estarmos dispostos a abrir mão de tudo o que o Senhor nos pedir.

Aquele homem pensava que guardava os Mandamentos Divinos desde a juventude, mas seu coração estava preso às riquezas. Amava as riquezas mais do que a Deus e confiava nelas para lhe trazer segurança e prosperidade, e não em Deus. A sua cobiça por elas tinha tomado o lugar de Deus em sua vida. Faltava a ele esse desprendimento, essa disposição de trocar valores próprios por valores espirituais.

O Senhor conhecia o coração do homem, como conhece o coração de cada um de nós. Ele o olhou com compaixão, e o amou. Ele viu que, embora aquele homem se esforçasse para cumprir os mandamentos, seu coração estava voltado para o que ele tinha posto acima de tudo como objeto de sua adoração, o que tomava o lugar de Deus. E como o Senhor sabia que a riqueza, Mamon, era o deus a quem o homem servia, por isso, quando listou para ele os Mandamentos, não citou aqueles três primeiros, justamente os que falam do amor a Deus: 1 - Não terás outros Deuses diante de Minha face. Não farás para ti imagem de escultura; 2 - Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; 3 - Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. ... Esses o homem não tinha podido cumprir, pois não amara a Deus sobre todas as coisas. E, não cumprindo esses, não cumprira, de fato, nenhum.

A segunda coisa que o Senhor lhe disse foi "vem, toma a cruz". Tomar a cruz representa algo muito sério. A cruz significa a luta, a tentação, que vem com dificuldade e dor. Ninguém gosta de carregá-la e ninguém a toma com prazer. Pois tomar a cruz implica que nela seremos crucificados. Tomar a cruz é um compromisso que assumimos de mortificar, em nossa natureza, todas as afeições e todos os pensamentos que o Senhor nos mostrar que não são retos e justos. Na cruz temos de pregar, até à morte, as cobiças do mal que nos agrada, os desejos impuros, a ambição, o orgulho e tantas outras coisas que devem morrer dentro de nós, para que possamos nos tornar realmente vivos espiritualmente.

Nós somos instruídos pelo Senhor a levar a nossa cruz, porque todas as coisas que, em nós, impedem a nossa aproximação dos céus, devem dissipadas e aniqüiladas, para que a vida realmente celeste possa ser implantada em nós pelo Senhor. Enquanto os sentimentos maus e egoísticos reinarem em nossos corações e mentes, os infernos têm controle de nossas ações e palavras, intenções e pensamentos, e os anjos não podem se aproximar com a vida celeste. Por isso, tudo o que é do inferno deve ser reconhecido, combatido, contrariado, vencido e removido; deve morrer, para que nasçamos de novo.

A cruz é, pois, símbolo de dor, luta e tentação, às vezes até ao desespero, porque esses tantos amores ruins dentro de nós não são removidos senão com dor e sofrimento. Quanto estamos lutando para remover uma afeição imprópria, um mal hábito, por exemplo, sentimos a dor dessa separação, pois parece-nos que é nossa própria vida que está morrendo. E, realmente, assim é. Por isso o Senhor falou: "Quem quiser vir após Mim, renuncie-se a si mesmo, tome a cada dia a sua cruz, e siga-Me".

Antes de sermos regenerados, nossa vida é a vida do velho homem, mesquinha e egoística. É essa vida, com todas as suas concupiscências, que deve morrer. Devemos renunciar a ela, pelo menos um pouco a cada dia. E isso acontece todas as vezes que contrariamos um mal em nossa vontade, dizendo: "Não! Não vou fazer isso, porque é contra os Mandamentos de Deus"; ou "Quero isso, mas não vou mais praticá-lo, porque é pecado contra Deus"; ou "Não vou mais ter esses pensamentos impuros, porque me afastam de Deus e do céu". Isto é crucificar-se a si mesmo.

Sempre que tomamos essa resolução de contrariar o que é mal, como se fosse por nosso próprio esforço, mas sabendo que é o Senhor, só, quem o faz, esse mal é gradativamente removido, e uma parte da vida do céu brota e começa a crescer dentro de nós. E se fizermos isso com constância e persistência, seremos transformados, de velha em nova criatura, de homem morto em um novo homem, vivo; de um ser diabólico em um ser angélico, que se prepara para a vida celestial e para morar no lar bem-aventurado do Senhor.

Por isso, tomar a cruz não é fácil. É a nossa tentação diária, da qual não podemos escapar. É doloroso e requer coragem e luta. Como disse o apóstolo Tiago: "Bem-aventurado o homem que suporta a tentação; porque, quando for provado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor tem prometido aos que o amam". Tiago 1:12

Realmente, nem somos nós que tomamos a cruz, mas, ao fazermos isso como se por nosso próprio empenho, o Senhor nos ajuda e a toma por nós. "Com efeito, fugir dos males como pecados, ninguém o pode, a não ser reconhecendo o Senhor e a Ele se dirigindo, e a não ser combatendo contra os males e afastando assim as concupiscências" (DV 66).

Por último, o Senhor disse ao homem: "Segue-Me". Seguir o Senhor é viver a vida cristã, e isso só é possível mediante a fé. Sé é possível reconhecendo-O como Senhor e Deus e observando os Seus mandamentos. É crer e saber, de coração, que só o Senhor dá o querer e o poder para vivermos a vida cristã. E que, sem o Seu poder, nada somos e nada conseguiremos operar de bom e verdadeiro. Mas este reconhecimento não deve ser só de boca. Não é bastante dizer: "Eu reconheço. Eu creio em Deus". O apóstolo Tiago também disse: "Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o crêem, e estremecem" (2:19).

Reconhecer é crer de coração, o que é também obedecer nos atos da vida àquilo que se reconhece como verdadeiro e Divino. Reconhecer realmente o Senhor é crer em Seus mandamentos e também praticá-los. Portanto, é na prática dos mandamentos que mostramos se seguimos ou não ao Senhor, assim como é na prática dos mandamentos que demonstramos amor por Ele. Saber os mandamentos da Palavra de cór não faz nada para a nossa salvação, mas obedecê-los, sim, é o que nos faz fiéis seguidores do Senhor.

Como se enganava aquele homem!. Pensava que seguia os mandamentos desde a sua juventude, mas, de fato, não seguia nenhum dele, pois não reconhecia a Deus. De fato, é possível que, em sua simplicidade, ele até fazia esforço para cumprir os mandamentos, talvez até um esforço sincero, razão pela qual Jesus o amou. Mas, como sabemos, ninguém pode cumprir os Mandamentos por si mesmo, sem o Senhor. Só Ele concede ao homem a condição de realizá-lo. Com efeito, são necessárias essas três coisas, que se tornam uma só: vender o que temos, tomar a nossa cruz e seguirmos o Senhor.

Irmãos, possamos nós estar dispostos a abrir mão de tudo aquilo que tivermos em nosso coração e que o Senhor, em Sua Palavra, nos mostrar que não nos convém, por ser realmente mal e falso. Possamos discernir a posse de coisas ilusórias, que acreditamos ser valiosas, mas que só arruinam nossas vidas espirituais. Possamos aprender a trocar nossas afeições e pensamentos próprios, por afeições da caridade e verdades da fé. Possamos estar dispostos a vender tudo o que temos de nosso, nosso orgulho, nosso poder, nossa capacidade, nossa própria sabedoria, porque esse poder é enganoso e essa sabedoria humana é vã.

Tenhamos a coragem de assumir a cada dia a nossa cruz, as nossas lutas, porque só com luta nos desvencilharmos de tudo o que é nocivo à nossa salvação, tudo o que é danoso à vida espiritual que o Senhor está implantando em nós. Estejamos prontos para enfrentar as lutas com coragem e firmeza, para enfrentar as tentações sem esmorecimento, sem desânimo e confiantes na vitória, pois esta é a única maneira de alcançarmos os ideais da vida verdadeira que o Senhor nos oferece.

E, finalmente, possamos viver a cada dia a vida nova, cumprindo as palavras que o Senhor nos ensinou, pois isto é segui-Lo a cada dia. Esse reconhecimento e uma vida condizente com os Seus mandamentos nos trarão a salvação e farão com que herdemos a vida eterna. Amém.

Lições: Marcos 10:17-24. Doutrina de Vida, 66

Doutrina de Vida, 66. "Lê-se, em Marcos, que um homem rico veio a Jesus e perguntou-Lhe o que era preciso fazer para receber a vida eterna em herança. Jesus lhe disse: "Conheces os mandamentos: Não cometerás adultério; não matarás; não roubarás; não levantarás falso testemunho; não cometerás fraude; honra teu pai e tua mãe. Ele, respondendo, disse: Todas essas coisas tenho guarda mandamentos: Não cometerás adultério; não matarás; não roubarás; não levantarás falso testemunho; não cometerás fraude; honra teu pai e tua mãe. Ele, respondendo, disse: Todas essas coisas tenho guardado desde a juventude. Jesus... olhou, e o amou; todavia, disse-lhe: Uma coisa te falta: Vai, vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres; assim terás um tesouro nos céus; então, vem, toma a cruz, e segue-Me" (10:17 a 22). É dito que Jesus o amou; isto é porque ele disse que tinha guardado os preceitos desde a juventude; mas restavam-lhe três coisas a cumprir, a saber, não tinha desapegado o seu coração das riquezas, não tinha combatido contra as cobiças e ainda não tinha reconhecido o Senhor como Deus. Por isso o Senhor lhe disse que "vendesse tudo quanto tinhuanto tinha", o que significa desapegar o coração das riquezas; "trouxesse a cruz", o que significa combater contra as concupiscências; e "segui-Lo", o que significa reconhecer o Senhor como Deus. Aqui, como por toda a parte, o Senhor falou por meio das correspondências (vide a "Doutrina sobre a Escritura Santa", n. 17). Com efeito, fugir dos males como pecados, ninguém o pode, a não ser reconhecendo o Senhor e a Ele se dirigindo, e a não ser combatendo contra os males e afastando assim as concupiscências. Mas, sobre este assunto, achar-se-ão maiores detalhes no artigo sobre os combates contra os males.

 

 

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Atualização: Outubro, 2013 - doutrinascelestes@gmail.com