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Sermão: "Preparai o caminho do Senhor"

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"Preparai o caminho do Senhor"

Sermão pelo Rev. C. R. Nobre

"Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus". Isaías 40:3

"E tu, ó menino, serás chamado profeta do Altíssimo, Porque hás de ir ante a face do Senhor, a preparar os seus caminhos; para dar ao seu povo conhecimento da salvação, Na remissão dos seus pecados". Lucas 1:76, 77

As palavras profetizadas por Isaías, e as que o foram pelo sacerdote Zacarias mais de quinhentos anos depois, falam da missão fundamental que João teria: de preparar caminho para o Senhor. Era uma preparação de corações e mentes das pessoas, para que pudessem receber os ensinamentos do Salvador que viera ao mundo.

Convido os irmãos a meditar no significado dessas palavras: "preparai o caminho do Senhor". O que elas querem dizer? Quando ouvimos esta ordem do Evangelho, a primeira idéia que nos acorre à mente é que se trata de preparação do caminho por onde Deus precisa passar para que possa Se aproximar de nós. Acreditamos que João veio para preparar uma vereda que era para Deus transitar em nossa direção. Afinal, era a vinda dEle até nós.

Mas, consideremos bem isso. Da parte de Deus, esse caminho nunca esteve nem poderia ter estado obstruído. Portanto, a idéia correta, acerca dessa preparação do caminho, só pode ser outra, num sentido contrário: "preparar o caminho do Senhor" é preparar caminho para nós irmos até o Senhor. É limpar a nossa parte do acesso, aplanando no ermo dentro de nós uma vereda por onde poderemos caminhar até Ele. Se lembrarmos que a conjunção do homem e o Senhor é recíproca, e que Ele está sempre perto, sempre presente conosco, então poderemos entender que esse caminho estava impedido apenas na nossa parte, mas esteve sempre limpo, sempre preparado e desimpedido na parte que compete ao Salvador.

"Preparai o caminho do Senhor", é o que João clamava no deserto. O verbo, no imperativo, é uma ordem de João, da Palavra, para nós. Indica, portanto, uma ação ou uma obra que cabe a nós fazermos, algo que tem de se operar na nossa parte da estrada, para podermos caminhar e nos encontrarmos com Ele.

"Preparai", vós, "um caminho para o Senhor", dizia João. É a obra que a Palavra nos manda efetuar, e, ao mesmo tempo, nos ajuda a fazer. É a remoção de obstáculos que impedem o nosso acesso a Deus, com o afastamento de diante de nós de tudo aquilo que tem nos impedido de ter comunhão com nosso Pai, Criador, Redentor e Salvador, o Senhor Jesus Cristo. "Preparai o caminho do Senhor" é uma ordem que tem a ver conosco, com o que fazemos ou deixamos de fazer todos os dias. Requer uma reorganização ou reestruturação de estados espirituais em nós, removendo o que for negativo de nossos corações e mentes, que impede a recíproca conjunção com o Divino.

Estamos nos aproximando do Natal, época em que nossos pensamentos se voltam para o significado da vinda do Senhor ao mundo. Mas precisamos refletir também sobre a Sua recepção; cumpre-nos entender que espécie de preparação urge fazermos, para que possamos recebê-Lo.

Aprendemos nas Doutrinas Celestes da Nova Igreja que toda preparação dos corações se faz por meio das verdades provenientes da Palavra, a partir das mais gerais, como os Dez Mandamentos. Essas verdades nos preparam quando são acomodadas e pregadas de uma maneira tal que possam servir de uso em nossas vidas. "Cada um, com efeito, deve preparar o caminho a Deus, isto é, deve se preparar para a recepção e essa deve se fazer pelos conhecimentos" (VRC 24). Portanto, não há outro meio de preparação a não ser a aquisição dos conhecimentos da verdades, porque esses conhecimentos formam uma base para que a mente e o coração transitem para regiões mais elevadas e celestes, até à recepção da fé.

João, apelidado depois Batista, pregava no deserto e batizava a todos os que iam ter com ele. João corresponde, como sabemos, a letra da Palavra. A voz de João clamando e chamando para o arrependimento significa a instrução do sentido literal da Palavra, dada de uma forma clara, objetiva e direta, mostrando indubitavelmente o que nos concerne fazer para haja em nós um acesso preparado para a elevação espiritual e a conjunção com o Senhor, que se fará, em seguida, de modo mais pleno, por meio das verdades espirituais, as que estão no sentido interno da Palavra.

As mensagens contidas nas parábolas, histórias, poesias e leis da letra da Palavra são vozes que apelam à nossa transformação, à retificação de nosso modo de pensar e de agir, pela remoção de males e falsidades, as coisas reais que se interpõem no nosso caminho para Deus, como lemos em Isaías: "... as vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que não vos ouça" (59:2).

O "deserto" onde João pregava representa o estado desolado da Igreja Judaica naquela época. Mas não somente daquela igreja e daquele tempo: o deserto ou o ermo é também todo estado estéril e sem vida de nossas mentes, quando parece que nos faltam a fé e a caridade, as coisas que são realmente vivas em nós. A mente e o coração do homem são, por si mesmos, mortos, quando entregues aos próprios princípios e às próprias atitudes egoísticas. São um deserto e uma desolação, onde nada vive, mas que pode ser vivificado pelo bem da caridade e a verdade da fé, transformando-se num jardim regado. E quando ocorre essa vivificação pela recepção do bem e da verdade, cumpre-se uma outra profecia de Isaías (58:11): "E o SENHOR te guiará continuamente, e fartará a tua alma em lugares áridos, e fortificará os teus ossos; e serás como um jardim regado, e como um manancial, cujas águas nunca faltam".

João pregava e dizia: "...eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo". Mateus 3:11.

O batismo de João, nas águas, é para servir de marca e lembrança. Marca para os anjos dos céus, que a pessoa é da Igreja, e lembrança para os homens, que a pessoa pode ser regenerada pelas verdades, que são representadas pelas águas. Mas o batismo nas águas não propicia, por si mesmo, fé nem salvação. É necessário que haja o segundo batismo de que João falou: com o Espírito Santo e com fogo, isto é, é necessário que haja a transformação do homem pelas verdades espirituais (Espírito Santo) e pelo fogo (os bens daí derivados).

A voz de João no deserto, a mensagem da Palavra de Deus, nos alcança em todos os estados de desolação espiritual: dúvida, abatimento e desesperança. Onde quer que nos encontremos espiritualmente, aí a Palavra nos chega e faz ouvir a sua voz. E, sempre que ouvida, nos inspira a necessidade de preparação, da abertura de um acesso novo entre nós e o nosso Deus. Sempre que abrirmos a Palavra com atitude reverente, a sua voz nos chama para a penitência, que é o arrependimento sincero seguido da transformação da vida. Todavia, a preparação do caminho para Deus, dentro de nós, não se faz instantaneamente, só por lermos a Palavra ou só por meditarmos em seus ensinos. Não basta ouvir a voz de João. Ninguém é preparado passivamente na vida espiritual, só por acreditar nos ensinamentos da Bíblia. Com efeito, a preparação do caminho requer um esforço ativo, uma resolução firme de nossa parte e, em seguida, uma ação corajosa e determinada para nos preparar, como se tudo dependesse de nossas próprias forças.

Lemos no Evangelho: "Então ia ter com ele Jerusalém, e toda a Judéia, e toda a província adjacente ao Jordão; e eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados" (Mateus 3:5). Notemos que a primeira coisa que os batizandos fazia era confessar os pecados. João anunciava a Verdade e as pessoas reconheciam seus erros, sua carência de salvação. A confissão era a manifestação pública de seu desejo de deixar para trás seus próprios caminhos, de remover o que lhes poderiam impedir de receber o reino de Deus vindouro. A letra da Palavra nos mostra, assim, o propósito amoroso de Deus para conosco, mas também aponta nossos erros de uma maneira irrefutável, ainda que, algumas vezes, isto nos seja desagradável de ouvir, como parecia às vezes rude a pregação de João.

O conhecimento e o reconhecimento do pecado é a primeira coisa da penitência, mas não é a única. Na realidade, não é muito difícil admitir o erro, pois isto depende apenas do entendimento e de alguma sinceridade associada a alguma humildade. Até os maus espíritos reconhecem seu estado errado, quando o querem, pois conservam consigo a racionalidade, que é a capacidade de discernir entre o certo e o errado, o bem e o mal. Portanto, reconhecer, só, que se está no mal não faz que se esteja preparado para receber o Senhor. Há, então, outra coisa a fazer, o passo seguinte na preparação.

Lemos em Lucas 3:10 a 14: "E a multidão o interrogava, dizendo: Que faremos, pois? E, respondendo ele, disse-lhes: Quem tiver duas túnicas, reparta com o que não tem, e quem tiver alimentos, faça da mesma maneira. E chegaram também uns publicanos, para serem batizados, e disseram-lhe: Mestre, que devemos fazer? E ele lhes disse: Não peçais mais do que o que vos está ordenado. E uns soldados o interrogaram também, dizendo: E nós que faremos? E ele lhes disse: A ninguém trateis mal nem defraudeis, e contentai-vos com o vosso soldo".

João lhes dizia coisas que, em suas vidas, em seus negócios, em seu dia a dia, deviam fazer ou deixar de fazer, sem o que, não poderiam estar preparados. Enquanto reconhecer o próprio erro requer apenas clareza de entendimento e sinceridade para o confessar, deixar de cometer esse erro requer algo mais difícil, pois envolve renunciar a própria vontade de fazer o mal, renunciar ao que lhe é cômodo e, mesmo, lhe parece ser bom e agradável; envolve afastar os males, as coisas que realmente fazem a separação entre a pessoa e Deus.

A cada um, fosse da multidão, fosse publicano ou soldado, João dizia com clareza o que tinha de fazer, para que estivesse preparado. A penitência dos pecados é efetiva quando a pessoa se esforça por deixar de fazer o que reconheceu como mal e, em seguida, fazer o bem. A regeneração só avança em nós quando estivermos empenhados numa luta – muitas vezes espinhosa – de renunciar a nós mesmos, nossos motivos e valores, quando a Palavra nos mostra que são maus.

O Senhor vem para a salvação de todos, mas cada um deve se preparar pessoalmente para a recepção do Senhor. Devemos, como a multidão, fazer a pergunta vital à Palavra de Deus: "Que faremos, pois?" A leitura da Palavra, numa atitude santa e com o fim de mudar a vida, mostrará as coisas que nos tem afastado todos os dias do nosso Senhor. Ler a Palavra é a nossa ida até João. E a leitura da Palavra deve ter um motivo só, vital, para nós: o de nos examinarmos, para descobrir o que nos compete fazer ou deixar de fazer, como devemos nos preparar a nós mesmos. E cada um de nós deve estar pronto para, ouvindo a direção Divina da Palavra, se esforçar em seguida para remover de sua vida os atos, as intenções e os pensamentos que são contra Deus e o próximo, as coisas que têm sido empecilhos de sua preparação, o estorvo a que possa prestar usos efetivos no reino de Deus, os frutos dignos do arrependimento que deve produzir dali por diante.

Notemos que João os batizava, os instruía e os deixava ir livres, para se prepararem como por si mesmos para a vinda do Messias.

Temos a ordem e está diante de nós o dever: "Preparai o caminho do Senhor". Se nos deixarmos preparar pelas verdades da Palavra, estaremos em condição de prosseguir, de sermos elevados para um outro patamar de vida consciente, a uma conjunção com o Senhor, e viveremos de acordo com uma consciência do que é justo e verdadeiro, de acordo com as verdades da fé.

O batismo de João preparou o povo para o início de uma Igreja nova, que substituiu a Igreja Judaica. A regeneração por meio das verdades dará início em nós à Nova Igreja, fazendo nascer em nossos corações e mentes valores e atitudes, afeições e pensamentos novos e dignos, que substituirão os de nossa antiga maneira de pensar e de agir.

Que o Senhor, em Sua misericórdia, nos conceda a firmeza de fé e a disposição de uma nova vontade, para nos prepararmos para a instauração do Seu reino em cada um de nós. "Portanto, assim te farei, ó Israel! E porque isso te farei, prepara-te, ó Israel, para te encontrares com o teu Deus" (Amós 4:12). Amém.

 

Lições: Isaías 40:1-11; Lucas 1:57-80

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Atualização: Outubro, 2013 - doutrinascelestes@gmail.com