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Sermão: "De que é feita uma Igreja?"

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De que é feita uma Igreja?

Sermão pelo Rev. C. R. Nobre

"Do Senhor é a terra e a sua plenitude; o mundo, e os que nele habitam. Pois Ele a fundou sobre os mares e a estabeleceu sobre os rios" - Salmo 24:1,2

 Sempre que lemos as palavras deste Salmo, as verdades aqui nos fazem refletir sobre a magnificência do Senhor, que é vista em todo o mundo criado; a sua realeza sobre toda a raça humana e, conseqüentemente, a dignidade em que Ele deve ser adorado. Mas, à medida que prosseguimos em compreender este salmo além do sentido literal, encontramos vários ensinamentos que concordam com as doutrinas sobre o estabelecimento de Sua Igreja. Somos então lembrados de que o Senhor quem faz e constitui Sua igreja no homem, e, em razão disso, nada do que pertence ao homem mesmo pode entrar na formação da verdadeira igreja.

Esta afirmação pode parecer estranha, a princípio, porque nós vivemos em toda aparência de que somos nós que formamos a igreja, ou que a igreja é constituída por pessoas, seus membros. No entanto, em toda a Palavra, o Senhor testifica em Sua Palavra toda a verdade a este respeito, e na Palavra encontramos as doutrinas que nos dizem como a Igreja do Senhor realmente é formada.

A Igreja tem origem na Palavra, e por isso, a primeira coisa da Igreja no homem é crer na Palavra (AC 9222). Pela Palavra é que se pode reconhecer a Divindade do Senhor Jesus Cristo, reconhecer a santidade de Sua Lei e saber qual é a vida que se chama vida de caridade. Essas três coisas são as principais, chamadas de essenciais da Igreja e são estes três essenciais pelos quais a Igreja é estabelecida. Uma vez que eles procedem da Palavra, torna-se clara razão pela qual se diz que a Palavra é a origem da igreja. De fato, dá-se o mesmo em relação a todas as coisas da criação, porque foi pela Palavra que o Senhor fez e formou todas as coisas criadas.

Sendo constituída pela Palavra, a Igreja e tudo o que diz respeito a ela são por isso constituídos pelo Senhor mesmo. Esta é a razão por que o Salmo diz: "Do Senhor é a terra, e a sua plenitude", pois "terra", na letra da Palavra, significa a Igreja, e "sua plenitude" significa todas as coisas pertencentes à igreja. É assim também que se lê em Isaías (66:1,2): "Assim diz o SENHOR: O céu é o meu trono, e a terra o escabelo dos meus pés; que casa me edificaríeis vós? E qual seria o lugar do meu descanso? Porque a minha mão fez todas estas coisas, e assim todas elas foram feitas, diz o Senhor...".

As coisas que constituem a Igreja são, por conseguinte, os doutrinais do vero e do bem que procedem da Palavra. São as verdades que testificam a respeito da Divindade do Humano do Senhor e ensinam o amor a Ele e ao próximo mais do que a si mesmo. Estas são as coisas de importância fundamental para a vida e a salvação do homem, e são as coisas que devem existir em nós, se quisermos ser feitos igrejas individuais ou parte da verdadeira igreja.

Esses ensinamentos, de que são as verdades e os bens do Senhor que de fato formam a Igreja em nós, são tão importantes que foram dados mesmo na doutrina da letra da Palavra, em forma de verdades nuas, isto é, verdades claramente expostas e por isso chamadas de verdades genuínas. Por essa razão é que existe nas Doutrinas Celestes a determinação de que a doutrina da Igreja deva ser extraída dos ensinamentos literais da Palavra e em seguida confirmadas por outros ensinamentos também do sentido literal (VRC 229). Porque é no sentido literal que encontramos os Dez Mandamentos e as leis do amor ao Senhor e ao próximo, em que a igreja deve ser fundada. E como assim é, por isso também o Salmo afirma que o Senhor firma a terra sobre os mares e a estabelece sobre os rios: "Pois Ele a fundou sobre os mares e a estabeleceu sobre os rios", onde os "mares" significam o complexo de todos os conhecimentos provenientes da Palavra, e os "rios" significa os conhecimentos vivos e o entendimento da doutrina (vide AE 239:5).

Todavia, não são os conhecimentos em si mesmos que constituem a Igreja com o indivíduo. Podemos ter a memória repleta de doutrinais tirados da letra da Palavra, e podemos ter o entendimento claro de todos esses doutrinais, e não obstante, não existir coisa alguma da Igreja real em nós. De fato, a sanidade e a pureza da doutrina constituem a Igreja no plano geral, a igreja coletiva. Mas a igreja em cada indivíduo só existe quando a vida é pautada por esses conhecimentos sãos e puros. Em outras palavras, a doutrina sã da Palavra faz a igreja no geral, mas a vida correta segundo a doutrina faz a igreja no indivíduo.

Enquanto nós lermos a Palavra e a guardarmos em nossa memória, e mesmo em nosso entendimento, nada da igreja existe ainda conosco. Mas quando começarmos sincera e humildemente a reconhecer nossa condição, quando começarmos de fato a combater o velho homem em nós, combatendo sinceramente o amor de si e o amor de dominar, praticando sistematicamente os ensinamentos adquiridos através dos hábitos e atos da vida, então, pela primeira vez, as verdades que tivermos assimilados sairão do terreno do intelecto e começarão a constituir em nós uma consciência do vero que nos dirigirá a um comportamento adequado de humildade, modéstia, benevolência, paciência, temperança e altruísmo, que é a vida da caridade, vida de uso, vida do bem.

Uma atitude de amor ao próximo começa em não querer mal ao semelhante, não odiá-lo nem desprezá-lo de modo algum, para em seguida progredir e evoluir para uma vida de uso e serviço espirituais ao próximo e ao Senhor. E estas são coisas internas, pois procedem do coração e da vida.

Pois bem, quando em nossa vida tivermos rompido as cadeias do domínio do amor de si e de dominar, quando tivermos subjugado em nós males e ambições provenientes desses maus amores, e tivermos aprendido a dar lugar às práticas de uma vida irrepreensível, então, pela primeira vez, começará a ser estabelecida alguma igreja espiritual dentro de nós. Pelo que o Senhor disse: "Se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus". E lembremo-nos de que, nos atos externos e nas palavras, os fariseus faziam questão de serem irrepreensíveis. Ora, se nós, sabedores disso, formos ainda praticantes de atos e palavras reprováveis e de escândalo, fazendo-nos dignos de repreensão, não é verdade que a nossa justiça ainda se achará muito aquém a dos próprios escribas e fariseus, que foram condenados?

Devemos ter em mente, pois, que, sendo as coisas do Senhor, a saber, somente os veros e bens reais, que formam a Sua igreja espiritual dentro de nós, então, todas as coisas que são propriamente nossas não entram nem devem entrar na formação da igreja. Portanto, nossos princípios, formados pelos nossos próprios raciocínios e razões, não constituem a igreja. E se esses princípios forem falsos, ainda menos constituirão qualquer igreja vive em nós. Nossos sentimentos de amor próprio, nossas cobiças, nossas ambições, nosso eu, realmente, não cabem na igreja; e se eles esses amores forem deliberadamente direcionados para o mal, ainda menos entrarão na igreja do Senhor.

As Doutrinas Celestes são muito claras em nos advertir sempre sobre isso: a igreja só é estabelecida com cada indivíduo quando ele afasta os males dos seus amores próprios, que são o amor de si, amor do mundo e amor de dominar, e em seguida faz o bem pela afeição. E ninguém pode afastar os males se não se abstém de cometê-los, sofrendo por isso tentações e as vencendo pelo poder do Senhor. Quando luta e se abstém de falar e fazer o falso e o mal, o homem começa a ser preparado para receber em si a igreja e o céu, e não antes (vide AC 6658). É por isso que, na continuação, o Salmo 24 diz: "Quem subirá ao monte do SENHOR, ou quem estará no seu lugar santo? Aquele que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à vaidade, nem jura enganosamente. Este receberá a bênção do SENHOR e a justiça do Deus da sua salvação".

É o Senhor quem forma e estabelece a Sua Igreja, através das verdades da Palavra. Mas Ele só faz isso naqueles que se dispuserem a serem regenerados. "Limpos de mãos e puros de coração" se refere àqueles cujos atos são retos e irrepreensíveis e que afastam as intenções do mal de seu coração. "Não entregar a alma à vaidade" é não cultivar o amor de si, o amor do mundo e o amor de dominar. "E não jurar enganosamente" é não pronunciar falsidades e enganos para confirmar esses amores. Tudo isto é a mesma coisa que dizer: "aqueles que afastam os males como pecados é que estarão na igreja do Senhor".

Todos os ensinamentos da Palavra sobre o estabelecimento da igreja no indivíduo se referem ao bem e ao vero, porque o bem e o vero provêm da Palavra, que se refere, em toda parte, ao Amor e à Sabedoria do Senhor. Essa dualidade de bem e vero é essencial para a vida de todas as coisas espirituais em nós, porque eles, bem e vero, formam uma conjunção, um casamento, pelo qual o Senhor age e que é a própria Imagem e Semelhança dEle no indivíduo. Da conjunção das verdades que sabe com os bens que pratica depende a vida espiritual e a salvação do homem (vide AC 3939). E sem essa conjunção, não há igreja, porque a igreja nasce quando a doutrina do vero se casa com a vida do bem.

Esse casamento em cada indivíduo não pode acontecer da noite para o dia, mas começa a tomar forma e a existir gradualmente, à proporção que ele combate os males e exercita a auto-renúncia, a penitência. Há que existir uma transformação no modo antigo de pensar, o que se chama reforma, e a implantação de um novo modo de agir, o que se chama regeneração. Se não há essa mudança, a vida antiga prevalecendo, não há a conjunção espiritual nem igreja alguma nele.

Depois da queda da Igreja Antiqüíssima, o ser humano foi dotado de entendimento e vontade que pudessem ser separados justamente para que se possa receber os veros no entendimento e, por eles, olhar-se, de cima, toda espécie de afeição que rasteja nos inferiores da vontade. E quando se pratica a penitência através da abstenção dos amores de si, do mundo e de dominar, o Senhor implanta a consciência e afeições novas, que são embriões de uma vontade nova, o próprio novo, que começa então a existir e é a igreja na pessoa.

A conjunção do bem e vero que faz a Igreja no homem existe, por conseguinte, como resultante de um esforço continuado de negar-se a si mesmo a cada dia e a cada dia crucificar os aspectos daninhos da velha vontade. Na perseverança desse esforço, a criatura humana será, no fim de sua vida neste mundo, um esboço do casamento celeste de fé e caridade que em seguida será aperfeiçoado por toda a eternidade, fazendo com que seja uma imagem angélica do Divino amor e Divina sabedoria do Criador.

Esta conjunção, que gera a igreja dentro de nós, só pode acontecer quando o homem age pela caridade, ou, como lemos nos AC 916, quando age "pelo bem da caridade, e não quando diz que tem fé sem ter a caridade, pois então não é sequer uma igreja. Pois o que é a doutrina da fé senão a doutrina da caridade? E qual é o propósito da doutrina da fé, senão que as pessoas façam aquilo que a caridade ensina? (...) Da mesma maneira, para que serve o mandamento? Não é para que o homem conheça, mas para que ele viva de acordo com o mandamento".

Assim, estas são as coisas pelas quais a Igreja é estabelecida pelo Senhor no homem, e sem elas a igreja não pode absolutamente existir (AC 769). Se faltar um desses essenciais, a Igreja perece. Os bens e veros provenientes são dados ao homem, mas pertencem ainda ao Senhor. Os bens e veros são riquezas espirituais das quais o homem é mero mordomo, para delas fazer uso para seu bem-estar e o dos seus semelhantes, mas são propriamente do Senhor no homem. São os elementos vitais que constituem a igreja e a vida espiritual de cada fiel. Por esses bens e veros o Senhor dá ao homem um entendimento novo e uma vontade nova. E quando o homem tem o entendimento novo do vero e a vontade nova do bem, ele tem as coisas com que o Senhor pode Se conjuntar.

Quem quiser ser prudente, não se aproprie jamais de coisa alguma do bem e do vero que houver nele, pois pertencem ao Senhor. E com mais forte razão, quem quiser ser ter dentro de si a igreja verdadeira, não imagine que alguma coisa propriamente sua possa fazer parte dessa igreja. De fato, tudo o que é propriamente do homem é em si mesmo sem vida, infernal e diabólico, e são esses atributos do homem em si mesmo que estão representados pelos que ficarão de fora da Nova Jerusalém, no Apocalipse: "Bem-aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos, para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar na cidade pelas portas. Ficarão de fora os cães e os feiticeiros, e os que se prostituem, e os homicidas, e os idólatras, e qualquer que ama e comete a mentira".

O proprium do homem é o que deve ficar fora da igreja, e as coisas Divinas que o homem receber, pela sujeição aos veros e prática da penitência, são as coisas que formam, constituem e estabelecem a Igreja nele. Lemos nos Arcanos Celestes (10282) que: "as coisas Divinas realmente influem no homem, porém não se tornam do homem, mas são do Senhor com o homem".

De fato, quando existe a aparência de que a Igreja do Senhor é formada por pessoas, e que as pessoas da Igreja contribuem, cada uma, com suas experiências, seus princípios e suas afeições para formar a Igreja. Mas isto é falso e uma ilusão dos sentidos. E quanto mais se conhece a do Senhor é formada por pessoas, e que as pessoas da Igreja contribuem, cada uma, com suas experiências, seus princípios e suas afeições para formar a Igreja. Mas isto é falso e uma ilusão dos sentidos. E quanto mais se conhece a realidade espiritual, mas esta verdade se torna clara, até que seja finalmente reconhecida, como o fazem os anjos, pois eles confessam que só o Senhor faz o céu neles, e tudo o que é propriamente deles não faz o céu, pois é oposto ao bem (vide AC 10251).

Por tudo isto, é evidente que o caráter de uma igreja no plano geral depende do caráter de cada um de seus membros em particular. Em outras palavras, o crescimento e o fortalecimento espirituais da igreja depende da evolução espiritual da regeneração de cada um de seus membros. Quanto mais os membros combaterem individualmente o domínio dos amores de si e do mundo em suas vidas, mais a igreja no plano geral se solidifica e se torna espiritual e viva. (vide AC 4292).

De acordo com esta doutrina, o mero ajuntamento das pessoas não forma uma igreja. Nem mesmo o entendimento bem esclarecido de todos eles pode fazer coisa alguma para que a igreja exista, pois quando o Senhor forma sua Igreja, ele nada toma de nós mesmos. Mas quando todos estiverem envolvidos no esforço de conhecer a Palavra de Deus para que, por meio do entendimento claro da Palavra, estejam numa determinação sincera de se absterem do mal e da falsidade, em todas as suas formas, manifestas ou dissimmanifestas ou dissimuladas, nos atos ou nas intenções, nas palavras e no pensamento, então, e somente então, existe, finalmente, lugar que o espírito santo do Senhor influa e opere em cada um, formando em cada a consciência que, se for ouvida e respeitada, pode vir a se tornar uma igreja dentro de nós.

Quando cada um recebe com interesse os veros no seu entendimento, e pratica com humildade e sinceridade os bens no seu viver, não quer dizer que a pessoa se tornará pura, santa e perfeita. De fato, é possível que ainda exista por algum tempo o mal, mas esse mal não será por premeditação, não será por propósito deliberado, e, tão logo seja manifesto na consciência, a pessoa mesma o combaterá, com o auxílio do Senhor. Quando todos estão voltados para o Senhor, cada um reconhecendo e confessando seus próprios males, e cada um empenhado num esforço honesto de ser liberto deles, então o Senhor mesmo dirigirá cada um nos caminhos da regeneração, o Senhor mesmo formará a Sua igreja em cada indivíduo. Assim, na implantação da igreja do Senhor, não há lugar para o constrangimento da vontade, nem de autoritarismo humano, nem exacerbação personalidades, coisas tão comuns nas igrejas que até aqui existiram. Porque "Do Senhor é a terra e a sua plenitude; o mundo, e os que nele habitam".

A Igreja, ou o reino do Senhor dentro de cada um de nós, existe e progride na proporção em que recebemos os veros da fé e o bem do amor do ao Senhor e para com o próximo. E essa recepção, se existir, manifestar-se-á, necessariamente através de atos compatíveis na vida. Assim, além de estar na igreja, o homem estará nos céus, pois a igreja e os céus, em conjunto, são o reino do Senhor em nós. Amém.

Lições: Salmo 24; VRC 244, 245 e 249.

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Atualização: Outubro, 2013 - doutrinascelestes@gmail.com