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Sermão: "Tempo e eternidade"

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..Tempo e eternidade

Sermão pelo Revmo. Bispo George deCharms

"Eis que fizeste os meus dias como a palmos; o tempo de minha vida é como nada diante de Ti" (Salmo 39:5).

É fácil, teoricamente, reconhecermos que todo poder pertence ao Senhor e que dependemos inteiramente da orientação e proteção da Divina Providência. Mas a aparência de vida própria é tão forte em cada um de nós, que não sentimos tal dependência como uma realidade, a menos que passemos por uma experiência convincente. Somente quando enfrentamos forças opostas que não podemos dominar e quando, em conseqüência, somos ameaçados com a perda daquilo que amamos, podemos compreender o quanto somos verdadeiramente fracos.

Quando estamos sob o império do sofrimento, lembramo-nos da passagem de nosso texto, dizendo em nossos corações. "Eis que fizeste nossos dias sob medida; o tempo de nossa vida é como nada diante de Ti", o que se torna exatamente uma prece inspirada pela ansiedade e pelo sofrimento. Suplicamos a libertação do sofrimento sem, entretanto, renunciarmos a nossos próprios objetivos, que supomos constituírem nossa vida. Tal suposição é o estado retratado no livro do Êxodo pela rebelião dos filhos de Israel contra a liderança de Moisés, quando as hostes do Faraó ameaçaram jogá-los no Mar Vermelho e afogá-los. Eles disseram então: "Teria sido melhor para nós morrermos no deserto". Mas o Senhor disse a Moisés: "Dize aos filhos de Israel que marchem". Eles preferiam morrer a passar pela experiência que concorreria para sua regeneração. Mas o Senhor não dá atenção à prece que sai do pensamento e do amor do eu. O homem necessita renunciar à vontade própria, a fim de que possa receber nova vida do Senhor.

Quando aceitamos a lição de nosso texto, renunciando a nossos próprios objetivos, nossa vontade está apta a receber a nova vida que vem do influxo do Senhor. O tempo, excluindo sua influência na regeneração espiritual do homem, nada é diante do Senhor. No mundo natural, resulta do movimento de corpos materinhor. No mundo natural, resulta do movimento de corpos materiais no espaço, pelo qual são medidos os anos, meses, dias, horas, minutos e segundos. Estas divisões chamam nossa atenção e impressionam nossa consciência. Mas, quando raciocinamos sobre isso, o tempo parece uma restrição indesejável a nossas ações. Isto é assim porque, ainda que tenhamos nascido neste mundo, somos destinados a viver num mundo em que o tempo não tem significação. Mesmo vivendo na terra, o tempo é alheio à nossa mente interna, que não é governada pelos relógios, mas por seus amores e afeições. Quando nos sentimos felizes, o tempo voa e desejamos que assim continue indefinidamente. Quando, ao contrário, nos sentimos tristes ou ansiosos, o tempo se arrasta e cada momento parece uma eternidade, de que desejamos escapar. Quando se percebe a verdadeira felicidade, perde-se a noção do transcurso do tempo.

Entretanto, enquanto vivemos na terra, o tempo é essencial. Há tempo para plantar a semente e tempo para fazer a colheita. Há tempo para o trabalho e tempo para o descanso. Há o tempo da infância e da juventude, da maturidade e da velhice. O tempo

marca, em cada uma delas, as oportunidades e os desafios a serem enfrentados. Se as coisas não forem executadas no momento exato, estarão perdidas para sempre ou, se afinal realizadas, dependerão de esforço muito maior. Mesmo o Senhor, realizando o trabalho da redenção, quando esteve na terra, submeteu-se às inelutáveis restrições do tempo, como lemos em João 9:4: "Convém que Eu faça as obras d’Aquele que Me enviou enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar".

A importância do tempo está no fato de que ele chama nossa atenção para a existência de uma lei divinamente estabelecida, uma progressão ordenada, inteiramente independente de nossos sentimentos pessoais. O tempo indica não somente nossas necessidades físicas, mas também nossos deveres para com os outros, muitas vezes com precedência sobre nossos próprios desejos. O tempo nos ajuda, portanto, a compreender que a vida que vivemos é mais dos outros que mesmo nossa. Embora sejamos ambiciosos de prazeres e riquezas, o tempo nos é dado para ser usado a serviço do Senhor e do próximo. Sem a pressão do tempo, não corrigiríamos nossas impressões e idéias errôneas. Sem a pressão do tempo, com seus sofrimentos e tentações, não nos regeneraríamos. Por isso, o Senhor nos exorta a tomar nota da passagem do tempo, quando diz: "Vigiai, pois, porque não sabeis quando virá o senhor da casa, se à noite, se ao cantar do galo, se pela manhã; para que vindo de improviso não vos ache dormindo. E as coisas que vos digo digo-as a todos: Vigiai". (Marcos 13:35 a 37).

Durante o processo de nossa regeneração, as restrições fixadas pelo tempo são inteiramente necessárias; teremos de orientar-nos pelo bem e pela verdade. Quando o amor do eu é substituído pelo amor ao Senhor e quando o amor do mundo é substituído pela caridade para com o próximo, podemos ser libertados de nossas limitações e introduzidos na vida eterna. Essa mudança nos espanta, porque não temos ainda noção perfeita da eternidade. Parece-nos um caminho sem fim. Mas não é essa a eternidade da vida no céu. No mundo espiritual, há progressões contínuas de estado, que nada têm a ver com o tempo.

Ali, já não há influência do tempo. Há estados de manhã, meio-dia e tarde, que seguem um ao outro com toda aparência de tempo. Mas essas mudanças são representativas das afeições dos anjos. O sol do mundo espiritual jamais se levanta ou se põe. Permanece constante diante dos olhos dos anjos, iluminando com raios brilhantes ou declinando de brilho, de acordo com os estados deles. Para esses estados só há uma medida: o amor dos anjos. Sua duração e seu encurtamento são determinados pelas afeições. O anjo não tem noção da passagem do tempo. Não tem ansiedade pelo futuro e não tem impaciência; ele vive na bem-aventurança do presente. Sua alma e sua mente gozam de paz, porque ele confia na misericordiosa proteção do Senhor e submete sua vontade à orientação da Divina Providência. Ele vive no presente e sente sua vida cheia, rica, plena de alegria. Tal é o perpétuo estado daqueles que se encontram no céu. Experimentam trocas de estados, que os habilitam a descobrir novas verdades e a gozar percepções mais profundas e maravilhosas. Penetram mais particularmente nas delícias do uso e por isso crescem em inteligência e sabedoria. Sua vida é uma sucessão de surpresas agradáveis.

No mundo espiritual não ha idéia de morte, não há medo de que a vida chegue ao fim nem a preocupação de urgência que persegue as criaturas humanas neste mundo com o constante pensamento de que há muita coisa para fazer e pouco tempo disponível. No n. 382 do livro ARCANOS CELESTES, lemos o seguinte: "Milhares de anos não parecem aos anjos como tempo, mas, ao contrário, afigura-se-lhes como se eles tivessem vivido apenas um minuto, porque no seu presente eles têm simultaneamente as coisas passadas e futuras. Daí resulta que eles não têm cuidado pelas coisas futuras. Não têm também nenhuma idéia sobre morte, pois pensam somente na vida. Assim, no seu presente estão a eternidade e a infinidade do Senhor",

A vida no céu é, portanto, uma perpétua vida no presente, cuja essência é o constante desejo de prestar usos, cujo objetivo é o conhecimento de novas verdades e cujo alvo é a aquisição de novos bens para serem distribuídos pelos outros, Tudo isso é realizado sem a interferência do tempo, sendo, assim, evitada a solução de continuidade nos estados dos anjos.

Mesmo aqui neste mundo nós podemos vislumbrar esses estados celestiais, pois, graças à nossa mente interna, vivemos em comunicação com o mundo espiritual, embora ainda presos à terra. Quando ficamos profundamente absorvidos por qualquer trabalho ou uso; quando estamos completamente desligados dos cuidados deste mundo; quando nos sentimos imensamente felizes; em todos esses estados, perdemos a noção do tempo. O que experimentamos nesses estados é o que foi descrito no versículo 20 do capítulo 29 do Gênesis, onde se lê: "Assim serviu Jacob a Labão sete anos por amor a Raquel; e foram seus a seus olhos como poucos dias, pelo muito que a amava".

A razão disso é que, em tais estados, o pensamento do eu é removido e, em sua ausência, desaparecem toda ansiedade, toda impaciência e toda preocupação.

Se, entretanto, não conseguirmos alcançar tais estados de felicidade, se formos assaltados por impaciência, ansiedades e preocupações, todas elas ligadas ao tempo, devemos orar ao Senhor, pedindo o fim de nossos sofrimentos, como fez o autor do Salmo que nos serviu de lição: "Faze-me conhecer, Senhor, o meu fim, e a medida de meus dias qual é, para que eu sinta quanto sou frágil....". Somente quando o interesse do eu é substituído por uma perfeita confiança no Senhor, somente quando, afinal, queremos aceitar Sua orientação sem reservas nem reclamações, somente então é alcançada a vitória sobre os sofrimentos, e somente então estamos preparados para dizer no íntimo de nossos corações: "Eis que fizeste os meus dias como a palmos; o tempo de minha vida é como nada diante de Ti".

Então, o tempo nada será para nós e fluiremos o estado daqueles que se encontram no céu, onde gozam, para todo o sempre, a alegria de viver. Então será realizada para nós a promessa do Senhor, contida no capítulo 26, versículos 3 e 4, de Isaías: "Tu, Senhor, conservarás em paz aquele cuja mente está firme em Ti. Confiai no Senhor perpetuamente, porque o Senhor Deus é uma rocha eterna". Amém.

 

1a. Lição : Salmo 39; O Céu e o Inferno n. 165 e 469

 Adaptação de J. Lopes Figueiredo

 

1. A RESSURREIÇÃO DO HOMEM

Quando o corpo do homem não pode mais exercer, no mundo natural, as funções correspondentes aos pensamentos e às afeições de seu espírito, que lhe vêm do mundo espiritual, diz-se que o homem morre, o que ocorre quando cessam os movimentos respiratórios dos pulmões e os movimentos sistólicos do coração. mas o fato é que o homem não morre; ele é somente separado do corpo que servia para seu uso no mundo. Com efeito o homem mesmo vive, porque o homem é homem não pelo corpo, mas pelo espírito, pois no homem é o espírito que pensa, e o pensamento juntamente com a afeição fazem o homem. Daí resulta que o homem... passa somente de um mundo para outro. É por isso que a morte, na Palavra, significa, no sentido interno, a ressurreição e a continuação da vida". (Céu e Inferno 445).

2. O TEMPO NO CÉU

Como os anjos não têm idéia alguma tirada do tempo, semelhante a idéia de tempo que os homens têm no mundo, eles não têm, por conseguinte, idéia alguma relativa às divisões do tempo, como ano, mês, semana, dia, hora, hoje, amanhã, ontem. Quando os anjos ouvem do homem tais palavras (pois há sempre anjos adjuntos ao homem pelo Senhor), em vez dessas divisões do tempo, eles entendem estados e coisas que dizem respeito ao estado (psíquico do homem). Assim, a idéia natural do homem é mudada em uma idéia espiritual nos anjos. Daí vem que os períodos de tempo, mencionados na Palavra, significam estados, e que as coisas próprias do tempo, tais como as divisões acima indicadas, significam os espirituais que lhes correspondem. (Céu e Inferno n.º 165)

3. MEMÓRIA DOS ANJOS E ESPÍRITOS

Os espíritos e os anjos têm uma memória como tinham neste mundo. Tudo o que eles ouviram, viram, pensaram, quiseram e fizeram permanece neles e por isso o seu racional é continuamente cultivado pela eternidade. Daí vem que os espíritos e os anjos se aperfeiçoam em inteligência e sabedoria pelos conhecimentos da verdade e do bem.... Todo espírito ou todo anjo conserva, na mesma quantidade e na mesma qualidade, a afeição que tinha no mundo e esta afeição é depois aperfeiçoada, o que se dá eternamente, porque nada existe que não possa encher-se durante a eternidade, pois tudo pode ser variada infinitamente e, assim, ser enriquecido por várias coisas, por conseguinte ser multiplicado e frutificado; não há fim para nenhuma coisa boa, porque ela procede do infinito. (CI 469).

 

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Atualização: Outubro, 2013 - doutrinascelestes@gmail.com