O Céu e o Inferno  - Capítulos 1 a 10 - Português

O Céu

e as suas maravilhas

e o Inferno

segundo o que foi ouvido e visto

 

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Emanuel Swedenborg

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Publicado originalmente em latim

no ano de 1758 em Londres

 

Traduzido por C. R. Nobre

 

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Edições das Doutrinas Celestes para a Nova Jerusalém

Brasil, 2005

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Copyright © by

Edições das Doutrinas Celestes para a Nova Jerusalém

 

Revisão

Lygia C. F. Dalcin e Roberto F. Dalcin

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Índice

Prefácio

1. O Senhor é o Deus do céu

2. O Divino do Senhor faz o céu

3. O Divino do Senhor, no céu, é o amor a Ele e a caridade para com o próximo

4. O céu é distinto em dois reinos

5. Há três céus

6. Os céus consistem em inúmeras sociedades

7. Cada sociedade é um céu na menor forma e cada anjo o é na mínima forma

8. Todo o céu em um só conjunto representa um só homem

9. Cada sociedade nos céus representa um só homem

10. Cada anjo é uma perfeita forma humana

Além de outros 53 capítulos na versão impressa).

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Prefácio

1. O Senhor, diante dos discípulos, quando falou sobre a consumação do século, que é o último tempo da igreja, no final das predições dos estados sucessivos dessa igreja quanto ao amor e a fé, disse assim:

"Logo... depois da aflição daqueles dias, o sol será escurecido e a lua não dará sua luz e as estrelas cairão do céu e as potências do céu serão abaladas. E então aparecerá o sinal do Filho do homem no céu; e então todas as tribos da terra prantearão e verão o Filho do homem, que virá nas nuvens do céu com poder e grande glória. E enviará os Seus anjos com trombetas e grande voz, e congregarão os Seus eleitos desde os quatro ventos, de um extremo dos céus até ao [outro] extremo deles" (Mat. 24:29 a 31).

Os que entendem essas palavras segundo o sentido da letra não crêem outra coisa senão que todas essas coisas deverão acontecer conforme estão descritas nesse sentido, no último tempo, que é chamado Juízo Final. Assim, não só que o sol e a lua serão escurecidos, as estrelas cairão do céu, o sinal do Senhor aparecerá no céu, Ele próprio será visto nas nuvens juntamente com os anjos com trombetas, mas, também, segundo as predições em outra passagem, que todo o universo visível deverá perecer e, depois disso, deverão surgir um novo céu e uma nova terra. Nessa opinião está hoje a maioria das pessoas na igreja. Mas os que assim crêem não conhecem os arcanos latentes em cada uma das coisas da Palavra. Com efeito, em cada uma das coisas da Palavra existe um sentido interno no qual não são entendidas coisas naturais e do mundo, tais as que estão no sentido da letra, mas coisas espirituais e celestes. E isso não só quanto ao sentido das muitas expressões, mas também quanto a cada uma das expressões, porque a Palavra foi escrita por meras correspondências a fim de que houvesse um sentido interno em cada uma das coisas. Qual é esse sentido, pode-se ver por todas aquelas coisas que foram ditas e mostradas nos Arcanos Celestes sobre esse sentido, as quais se vêem também compiladas dali na explicação Do Cavalo Branco, de que se trata no Apocalipse. Segundo esse mesmo sentido é que devem ser entendidas as coisas que o Senhor falou, nas passagens citadas acima, sobre o Seu advento nas nuvens do céu. Ali, pelo "sol", que será escurecido, é significado o Senhor quanto ao amor; pela "lua", o Senhor quanto à fé; pelas "estrelas", os conhecimentos do bem e do vero ou do amor e da fé; pelo "sinal do Filho do homem no céu", a aparição do Divino vero; pelas "tribos da terra" que lamentarão, todas as coisas do vero e do bem ou da fé e do amor; pelo "advento do Senhor nas nuvens com poder e glória", a Sua presença na Palavra e a revelação; pelas "nuvens" é significado o sentido da letra da Palavra; pelos "anjos com trombetas e grande voz" é significado o céu, donde procede o Divino vero. Daí se pode ver o que se entende por aquelas palavras do Senhor: que, no fim da igreja, quando não mais existir o amor e, em decorrência disso, a fé, o Senhor abrirá a Palavra quanto ao seu sentido interno e os arcanos do céu serão revelados. Os arcanos, que são revelados agora no que se segue, são sobre o céu e o inferno e, ao mesmo tempo, sobre a vida do homem após a morte. Hoje, o homem da igreja quase nada conhece sobre o céu e o inferno nem sobre a sua vida após a morte, ainda que todas essas coisas se achem descritas na Palavra. E mais, muitos dos que nasceram no seio da igreja até as negam, dizendo em seus corações: "Quem veio de lá e nos contou?" Assim, para que tal negativismo - que reina principalmente naqueles que sabem muitas coisas do mundo - não infecte e corrompa também os simples de coração e de fé, foi-me concedido estar em companhia dos anjos, falar com eles como um homem com outro homem, ver as coisas que estão no céu e, também, as que estão no inferno e isso por treze anos. Foi-me concedido, assim, descrever agora essas coisas vistas e ouvidas esperando, com isso, esclarecer a ignorância e dissipar a incredulidade. A razão de hoje existir tal revelação imediata é porque esta é o que se entende pelo advento do Senhor.

 

1. O Senhor é o Deus do céu

 

2. A primeira coisa será saber quem é o Deus do céu, uma vez que todo o restante depende disso. Em todo o céu, nenhum outro é reconhecido por Deus do céu a não ser o Senhor, somente. Ali se diz assim, segundo o que Ele ensinou:

"Que Ele é um com o Pai, o Pai está n’Ele e Ele no Pai e, quem O vê, vê o Pai; e que tudo o que é santo procede d’Ele" (Jo. 10:30; 14:10, 11; 16:13-15).

Falei com os anjos muitas vezes sobre esse assunto e eles disseram categoricamente que, no céu, não podem dividir o Divino em três, porque sabem e percebem que o Divino é Um só e que esse Um é o Senhor. Disseram, também, que aqueles que da igreja vêm do mundo, nos quais há a idéia de três Divinos, não podem ser admitidos no céu, uma vez que o pensamento deles vagueia de um para outro e ali não é permitido pensar três e dizer um, porque cada um no céu fala pelo pensamento, pois ali a fala é cogitativa ou o pensamento falando. Por causa disso, aqueles que no mundo dividiram o Divino em três e receberam uma idéia separada de cada um, sem a fixarem e concentrarem no Senhor, não podem ser recebidos, pois no céu há uma comunicação dos pensamentos de todos, de sorte que, se ali viesse alguém que pensa em três e diz um, seria imediatamente reconhecido e rejeitado. Mas cumpre saber que todos aqueles que não separaram o vero do bem ou a fé do amor, quando são instruídos, na outra vida, recebem a idéia celeste sobre o Senhor, de que Ele é o Deus do universo. Mas acontece de outro modo com os que separaram a fé da vida, isto é, os que não viveram segundo os preceitos da verdadeira fé.

3. Aqueles que, na igreja, negaram o Divino e reconheceram somente o Pai, confirmando-se em tal fé, esses estão fora do céu; e como não há neles influxo algum do céu, onde o Senhor, somente, é adorado, são privados gradativamente da faculdade de pensar o vero sobre qualquer assunto e, finalmente, ou tornam-se mudos ou falam insensatamente e andam errantes; seus braços pendem e balançam como se desprovidos de força nas juntas. Os que, porém, negaram o Divino do Senhor e reconheceram somente o Seu Humano, como se dá com os socinianos, esses estão, semelhantemente, fora do céu e são levados para frente, um pouco para a direita e lançados na profundeza; são, assim, inteiramente separados dos demais do mundo cristão. Mas os que dizem crer num Divino invisível a que chamam de Ser do universo de que todas as coisas existem, rejeitando a fé no Senhor, esses são reconhecidos como não crendo em nenhum Deus, porque o Divino invisível é para eles como a natureza em seus princípios, ao qual não se aplica a fé e o amor, porque não entra no pensamento; esses são exilados entre os que se chamam naturalistas. Acontece de outro modo com os que nasceram fora da igreja, que se chamam gentios, de quem se tratará adiante.

4. Todas as crianças, das quais é a terça parte do céu, são iniciadas no reconhecimento e na fé de que o Senhor é o seu Pai e, depois, que é o Senhor de todos, assim, Deus do céu e da terra. Na seqüência se verá que as crianças crescem nos céus e se aperfeiçoam pelos conhecimentos até à inteligência e sabedoria angélicas.

5. Os que são da igreja não podem duvidar de que o Senhor seja o Deus do céu, pois que Ele ensinou:

Que todas as coisas do Pai são d’Ele (Mat. 11:27; Jo. 16:15; 17:2); e que a Ele pertence todo o poder no céu e na terra (Mat. 28:18).

Foi dito "no céu e na terra" porque quem governa o céu governa também a terra, pois um depende do outro. Governar o céu e a terra é receber do Senhor todo bem que é do amor e todo vero que é da fé, assim, toda inteligência e sabedoria e, dessa maneira, toda a felicidade. Em suma, a vida eterna. Isso o Senhor também ensinou, dizendo:

"Quem crê no Filho tem a vida eterna; quem, porém, não crê no Filho, não verá a vida" (Jo. 3:36).

Em outra passagem:

"Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá; todo o que vive e crê em Mim, não morrerá na eternidade" (Jo. 11:25, 26).

E em outra passagem:

"Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (Jo. 14:6).

6. Havia alguns espíritos que, quando viveram no mundo, professaram o Pai e não tiveram do Senhor outra idéia senão a que tinham a respeito de outro homem; assim, não creram que Ele fosse o Deus do céu. Por causa disso, foi-lhes permitido andar pelas cercanias e perguntar onde quisessem se havia algum céu que não o do Senhor. Até procuraram por alguns dias, mas em nenhuma parte o encontraram. Havia entre esses alguns que punham a felicidade do céu na glória e na dominação; e como não puderam obter o que desejavam – tendo-lhes sido dito que o céu não consiste nisso – ficaram indignados e quiseram ter um céu em que pudessem dominar sobre os outros e onde sobressaíssem em glória como no mundo.

2. O Divino do Senhor faz o céu

7. Tomados em conjunto, os anjos se chamam céu, porque o constituem. Mas é o Divino procedente do Senhor, influindo nos anjos e sendo recebido por eles, que faz o céu no geral e no particular. O Divino procedente do Senhor é o bem do amor e o vero da fé. E tanto quanto de bem e de vero recebem do Senhor, mais são anjos e mais são o céu.

8. Nos céus, cada um sabe, crê e mesmo percebe, que nada de bem quer e faz por si e nada de vero pensa e crê por si, mas pelo Divino, assim, pelo Senhor; e o bem e o vero que vêm de si não são bem nem vero, porque nesses não há a vida proveniente do Divino. Isso os anjos do céu íntimo também percebem claramente e sentem pelo influxo; e quanto mais o recebem, mais se vêem como sendo o céu, porque mais estão no amor e na fé, mais na luz da inteligência e da sabedoria e, assim, na alegria celeste daí proveniente. Visto que todas as coisas procedem do Divino do Senhor e nelas está o céu dos anjos, é evidente que o Divino do Senhor faz o céu e não os anjos por alguma coisa propriamente sua. Assim é que o céu, na Palavra, é chamado "habitáculo do Senhor" e "Seu trono" e, dos que ali estão, se dizem estar no Senhor. Mas de que maneira o Divino procede do Senhor e enche o céu, isso se dirá na seqüência.

9. Os anjos, por sua sabedoria, progridem sempre mais. Dizem que não somente todo bem e todo vero são provenientes do Senhor, mas também tudo o que é da vida. Confirmam isso pelo fato de que nada pode existir por si, mas por um anterior a si; assim, todas as coisas existem por um Primeiro a que chamam o Ser da vida de todos e por aí subsistem, visto que o subsistir é o perpétuo existir; e o que não for continuamente mantido em conexão com o Primeiro, por intermediários, logo desvanece e é inteiramente dissipado. Afirmam, além disso, que há uma única Fonte de vida, e a vida do homem é como um rio proveniente daí, o qual, se não subsiste continuamente de sua fonte, logo se esvai. [2] Além disso, dessa única Fonte de vida, que é o Senhor, nada procede senão o Divino bem e o Divino vero; esses tocam cada um segundo a recepção. Os que recebem essa vida e fé, neles há o céu; mas os que as rejeitam ou sufocam, convertem-nas em inferno, porque tornam o bem em mal e o vero em falso, assim, a vida em morte. Que toda vida seja proveniente do Senhor, confirmam-no também por isso, que todas as coisas no universo se referem ao bem e ao vero: a vida da vontade do homem, que é a vida do seu amor, ao bem; e a vida do entendimento do homem, que é vida de sua fé, ao vero. Por isso, como todo bem e vero vem de cima, segue-se que também toda vida. Como os anjos crêem assim, por isso recusam toda ação de graças por causa de algum bem que fazem; ficam indignados e se retiram se algum bem for-lhes atribuído. Admiram-se de que alguém creia que sabe por si e faz o bem por si. Fazer o bem por causa de si, a isso não chamam bem, pois que é feito por si; mas fazer o bem por causa do bem, a isso chamam bem do Divino e esse bem é que faz o céu, pois esse bem é o Senhor.

10. Não são recebidos no céu os espíritos que, quando viveram no mundo, confirmaram-se na fé de que o bem que fazem e o vero que crêem são provenientes deles próprios ou que se apropriaram deles como seus. Nessa fé estão todos aqueles que põem o mérito nas boas ações e reivindicam a justiça para si. Os anjos fogem deles e os consideram como estúpidos e ladrões; estúpidos, porque constantemente visam a si e não ao Divino e ladrões porque roubam do Divino o que é d’Ele. Eles são contra a fé do céu, a qual é que o Divino do Senhor, nos anjos, faz o céu.

11. Que aqueles que estão no céu e na Igreja estejam no Senhor e o Senhor esteja neles, o Senhor também o ensina, dizendo:

"Permanecei em Mim e Eu em vós; assim como o ramo não pode dar fruto por si, se não permanecer na videira, tampouco vós, também, se não permanecerdes em Mim. Eu sou a Videira, vós os ramos. Quem permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim não podeis fazer coisa alguma" (Jo. 15:4-7).

12. Por aí se pode ver agora que o Senhor habita no que é Seu nos anjos do céu e, assim, é tudo em todas as coisas do céu, e isso pelo fato de que o bem proveniente do Senhor é o Senhor neles. Com efeito, vem d’Ele e é Ele; por conseguinte, o bem proveniente do Senhor é o céu nos anjos e não algo do próprio deles.

 

3. O Divino do Senhor, no céu, é o amor a Ele e a caridade para com o próximo

13. O Divino procedente do Senhor chama-se, no céu, Divino vero, pela razão de que se tratará na seqüência. Esse Divino vero influi no céu, do Senhor, desde o Seu Divino Amor. Comparativamente, dá-se com o Divino Amor e o Divino vero daí oriundo como com o fogo do sol e a luz daí proveniente, no mundo; o amor é como o fogo do sol e o vero daí é como a luz do sol. Também, pela correspondência, o fogo significa o amor e a luz, o vero daí procedente. Assim se pode ver o que é o Divino vero procedente do Divino Amor do Senhor, a saber, é, em sua essência, o Divino bem conjunto ao Divino vero. E como é conjunto, vivifica todas as coisas do céu, assim como o calor do sol conjunto à luz do mundo frutifica todas as coisas da terra, como se dá nas estações da primavera e do verão. É de outro modo quando o calor não é conjunto à luz, assim, quando a luz é fria e, então, todas as coisas entorpecem e se extinguem. Esse Divino bem, que é comparado ao calor, é o bem do amor nos anjos. E o Divino vero, que é comparado à luz, é pelo qual e do qual existe o bem do amor.

14. Que o Divino que está no céu e o constitui seja o amor, é porque o amor é a conjunção espiritual. Esse amor conjunta os anjos ao Senhor e os conjunta mutuamente entre si. E conjunta-os de tal modo que todos sejam um à vista do Senhor. Além disso, o amor é o Ser da vida em cada um, razão por que dele há a vida para o anjo e também a vida para o homem. Que do amor exista o íntimo vital do homem, qualquer um que pondera pode saber, porque se aquece por sua presença, se esfria por sua ausência e morre por sua privação. Mas deve-se saber que, qual é vida de cada um, tal é o amor.

15. Há dois amores distintos no céu: o amor ao Senhor e o amor para com o próximo. No céu íntimo ou terceiro há o amor ao Senhor e no céu médio ou segundo há o amor para com o próximo. Um e outro procedem do Senhor e um e outro fazem o céu. De que maneira esses dois amores se distinguem e de que maneira se conjuntam, vê-se na clara luz no céu, mas, no mundo, somente de um modo obscuro. No céu, por amar ao Senhor não se entende amá-Lo quanto à pessoa, mas amar o bem que vem d’Ele; e amar o bem é querer e fazer o bem pelo amor. E por amar o próximo não se entende amar o amigo quanto à pessoa, mas amar o vero que provém da Palavra; e amar o vero é querer e fazer o vero. Assim, vê-se que esses dois amores se distinguem assim como o bem e o vero e se conjuntam assim como o bem com o vero. Todavia, essas coisas dificilmente entram na idéia do homem que não sabe o que é o amor, o que é o bem e o que é o próximo.

16. Conversei com os anjos algumas vezes sobre esse assunto. Disseram que ficam admirados de que os homens da igreja não saibam que amar o Senhor e amar o próximo seja amar o bem e o vero e fazê-los pelo querer, quando, todavia, podem saber que cada um declara seu amor por querer e fazer o que o outro quer; assim se é por sua vez amado e conjunto; não é por amar a alguém e, todavia, não fazer a sua vontade, o que em si não é amar. E podem saber também que o bem procedente do Senhor é Sua semelhança, visto que Ele ali está. E os que fazem do bem e do vero a sua vida tornam-se semelhanças d’Ele e são conjuntos a Ele pelo querer e pelo fazer. Querer é também amar fazer. Que seja assim, o Senhor também o ensina, dizendo:

"O que guarda os Meus preceitos e os faz, esse é o que Me ama... e Eu o amarei e morada nele farei" (Jo. 14:21, 23).

E, em outra passagem:

"Se guardardes os Meus mandamentos, permanecereis no Meu amor" (Jo. 15:10, 12).

17. Que o Divino procedente do Senhor, que afeta os anjos e faz o céu, seja o amor, é testificado por toda experiência no céu. Com efeito, todos os que ali são formas de amor e de caridade, apresentam-se numa beleza inexplicável e o amor brilha de suas faces, de sua linguagem e de cada coisa de suas vidas. Além disso, há esferas de vida espiritual que procedem de cada anjo e de cada espírito e os circundam; por elas se conhece, mesmo que à grande distância, quais eles são quanto às afeições que são do amor, pois essas esferas efluem da vida da afeição e, assim, do pensamento, ou, da vida do amor e, assim, da fé de cada um. As esferas dos anjos se apresentam como amor tão plenamente que afetam a vida íntima naqueles em quem estão. Eu as percebi algumas vezes e assim me afetaram. Que o amor seja aquilo do que anjos têm a sua vida, tornou-se-me evidente também pelo fato de que cada um, na outra vida, se volta segundo o seu amor. Os que estão no amor ao Senhor e no amor para com o próximo se voltam constantemente para o Senhor. Os que, porém, estão no amor de si, voltam-se constantemente para o lado oposto ao Senhor. Isso se faz em toda direção para a qual seus corpos se voltem, pois, na outra vida, os espaços são segundo os estados dos seus interiores. É semelhante com as plagas, que, ali, não são determinadas como no mundo, mas segundo a direção de suas faces. Não são, porém, os anjos que se voltam para o Senhor: é o Senhor que volta para Si aqueles que amam praticar as coisas que vêm d’Ele. Mas, sobre esse assunto, expor-se-ão muitas coisas na seqüência, onde se falar das plagas na outra vida.

18. Que o Divino do Senhor, no céu, seja o amor, é porque o amor é o receptáculo de tudo no céu, a saber, da paz, da inteligência, da sabedoria e da felicidade. Pois o amor recebe todas e cada uma das coisas que lhe convêm, deseja-as, busca-as e se imbui delas como se espontaneamente, pois quer continuamente se enriquecer e aperfeiçoar por elas. Isso é conhecido também pelo homem, pois o amor nele considera, por assim dizer, o que se acha em sua memória e delas extrai todas as coisas que concordam e as colige, dispõe em si e sob si; em si para que sejam suas e sob si para que sirvam às demais. As que não concordam, porém, rejeita e extermina. Que no amor esteja toda faculdade de receber os veros convenientes a si e o desejo de conjuntá-los a si, tornou-se-me também claro pelos que são conduzidos ao céu; esses, ainda que tenham sido simples no mundo, alcançaram a sabedoria angélica e a felicidade do céu quando estiveram entre os anjos. A razão disso foi terem amado o bem e o vero por causa do bem e do vero e os terem implantado na sua vida; por essa faculdade, tornaram-se aptos a receber o céu com todas as coisas inexplicáveis ali. Os que, porém, estão no amor de si e do mundo, esses não têm faculdade alguma de recebê-las, mas se afastam delas, rejeitam-nas e fogem ao primeiro contato de seu influxo, associando-se àqueles no inferno que estão em amores semelhantes aos seus. Havia espíritos que duvidavam de que houvesse tais coisas no amor celeste e desejaram saber se isso era assim; foram, por isso, postos no estado dos amores celestes – sendo removidos, durante esse tempo, os obstáculos – e, levados para frente, à distância do céu angélico, dali falaram comigo. Disseram que percebiam uma felicidade interior que era impossível de exprimir por palavras, muito pesarosos que tivessem de voltar ao estado anterior. Outros foram também elevados ao céu e, quanto mais interiormente ou mais alto foram transportados, mais entraram na inteligência e na sabedoria, para que pudessem perceber o que antes lhes era incompreensível. Assim é evidente que o amor procedente do Senhor é o receptáculo do céu e de tudo ali.

19. Que o amor ao Senhor e o amor para com o próximo contenham em si todos os veros Divinos, pode-se ver pelas coisas que o Senhor falou a respeito desses dois amores, dizendo:

"Amarás... teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma... este preceito é o maior e o primeiro; o segundo... que é semelhante a este, é, que ame o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois preceitos dependem a Lei e os Profetas" (Mat. 22:37-40).

"Lei e Profetas" é toda a Palavra, assim, todo o vero Divino.

4. O céu é distinto em dois reinos

20. Visto que no céu há variedades infinitas e uma sociedade não é inteiramente semelhante à outra, nem mesmo um anjo semelhante a outro, por isso o céu se distingue no geral, na espécie e no particular. No geral, em dois reinos; na espécie, em três céus; e no particular, em inúmeras sociedades. Tratar-se-á de cada um desses no que agora se segue. Diz-se "reino" porque o céu é chamado "reino de Deus".

21. Há anjos que recebem mais e menos interiormente o Divino procedente do Senhor; os que O recebem mais interiormente se chamam anjos celestes, mas os que O recebem menos interiormente se chamam anjos espirituais. Daí o céu se distinguir em dois reinos, dos quais um se chama "reino celeste" e o outro "reino espiritual".

22. Os anjos que constituem o reino celeste, uma vez que são aqueles que recebem mais interiormente o Divino do Senhor, chamam-se anjos interiores e também superiores; assim, os céus que eles constituem se chamam também céus interiores e superiores. Que sejam usados os termos "superiores e inferiores", é porque as coisas interiores e exteriores são chamadas assim.

23. Chama-se amor celeste o amor em que estão aqueles que se acham no reino celeste e chama-se amor espiritual o amor em que estão aqueles que se acham no reino espiritual. O amor celeste é o amor ao Senhor e o amor espiritual é a caridade para com o próximo. E como todo bem é do amor – porque aquilo que alguém ama, a isso chama bem – por isso, também, o bem de um reino se chama celeste e o do outro, bem espiritual. Assim, é evidente em que se distinguem esses dois reinos, a saber, são como o bem do amor ao Senhor e o bem da caridade para com o próximo. E como esse primeiro bem citado é o bem interior e esse amor é o amor interior, por isso os anjos celestes são anjos interiores e são chamados superiores.

24. O reino celeste também se chama reino sacerdotal do Senhor e, na Palavra, "Seu habitáculo", enquanto o reino espiritual se chama reino de Sua realeza e, na Palavra, "Seu trono". Pelo Divino celeste é que o Senhor é também chamado, no mundo, "Jesus" e, pelo Divino espiritual, "Cristo".

25. Os anjos no reino celeste do Senhor excedem muito em sabedoria e glória os anjos que estão no reino espiritual, pelo fato de receberem mais interiormente o Divino do Senhor; estão, com efeito, no amor a Ele e, assim, mais próximos e mais conjuntos a Ele. Que esses anjos sejam assim, é porque receberam e recebem os Divinos veros imediatamente na vida e não primeiro na memória e no pensamento, como fazem os espirituais. Por esse motivo, eles os têm gravados em seus corações, percebem-nos e, por assim, dizer, vêem-nos em si, nunca raciocinando sobre os veros, se são assim ou não. São os que são descritos em Jeremias:

"Estabelecerei a Minha lei em suas mentes e nos seus corações a gravarei... não ensinarão mais, cada um ao seu amigo e cada um ao seu irmão, dizendo: Conhecei Jehovah... Me conhecerão, desde o menor deles até o maior deles" (Jer. 31:33, 34).

E, em Isaías, são chamados:

"Ensinados de Jehovah" (Isa. 54:13).

Que os "ensinados de Jehovah" sejam os que são ensinados pelo Senhor, o Senhor mesmo o ensina em João (6:45, 46).

26. Foi dito que há para eles sabedoria e glória mais do para os outros, porquanto receberam e recebem os Divinos veros imediatamente na vida, pois, tão logo os ouvem, também os querem e praticam, sem guardarem na memória e, assim, sem cogitarem se são assim ou não. Os que são tais sabem logo, por um influxo provindo do Senhor, se um vero que ouvem é ou não o vero, pois o Senhor influi imediatamente no querer do homem e mediatamente, pelo querer, em seu pensar. Ou, o que é a mesma coisa, o Senhor influi imediatamente no bem e mediatamente no vero, por meio do bem, pois deste se diz que é da vontade e, assim, da obra, mas do vero se diz que é da memória e, assim, do pensamento. Também, todo vero é mudado em bem e implantado no amor tão logo entre na vontade; mas, enquanto estiver na memória e, assim, no pensamento, não se torna bem nem vive, nem é apropriado ao homem, uma vez que o homem é homem pela vontade, assim, pelo entendimento, e não pelo entendimento separado da vontade.

27. Porque há tal diferença entre os anjos do reino celeste e os anjos do reino espiritual, por isso não se acham juntos nem há consociação entre eles. Há somente uma comunicação por meio de sociedades angélicas intermediárias que se chamam celestes-espirituais. Por elas o reino celeste influi no reino espiritual. Por isso é que o céu, embora seja dividido em dois reinos, faz, no entanto, um só. O Senhor sempre provê para que haja tais anjos intermediários por quem existam a comunicação e a conjunção.

28. Visto que muito se tratará, na seqüência, dos anjos de um e de outro reinos, por isso os detalhes específicos serão aqui omitidos.

5. Há três céus

29. Há três céus e eles são distintíssimos entre si: o íntimo ou terceiro, o médio ou segundo e o extremo ou primeiro. Eles se seguem e subsistem entre si como a parte suprema do homem, que se chama cabeça, o seu meio, que é o corpo, e o último, que são os pés; e como a parte suprema de uma casa, sua parte média e sua parte mais baixa. O Divino que procede e desce do Senhor também está numa tal ordem; assim, é por necessidade da ordem que o céu seja tripartido.

30. Os interiores do homem, que são de sua mente e sua disposição, também estão em uma ordem semelhante. Há para ele um íntimo, um médio e um extremo, pois no homem, quando criado, foram reunidas todas as coisas da ordem do Divino, ao ponto de ele ser a ordem Divina na forma e, assim, um céu na menor efígie. Também por isso, o homem, quanto aos seus interiores, se comunica com os céus e está também, depois da morte, entre os anjos: entre os anjos do céu íntimo, ou do médio, ou do extremo, segundo a recepção, enquanto viveu no mundo, do Divino bem e vero provenientes do Senhor.

31. O Divino que influi do Senhor e é recebido no céu terceiro ou íntimo se chama celeste e, por conseguinte, os anjos que estão ali se chamam anjos celestes. O Divino que influi do Senhor e é recebido no céu segundo ou médio se chama espiritual e, por conseguinte, os anjos que estão ali se chamam anjos espirituais. Mas o Divino que influi do Senhor e é recebido no céu extremo ou primeiro se chama natural. Todavia, como o natural desse céu não é como o natural do mundo, mas tem em si o espiritual e o celeste, por isso esse céu se chama espiritual e celeste natural e, por conseguinte, os anjos que estão ali se chamam espirituais e celestes naturais. Chamam-se espirituais-naturais os que recebem o influxo do céu médio ou segundo, que é o céu espiritual; e chamam-se celestes-naturais os que recebem o influxo do céu terceiro ou íntimo, que é o céu celeste. Os anjos espirituais-naturais e celestes-naturais distinguem-se entre si, ainda que constituam um só céu, porque estão em um só grau.

32. Em cada um dos céus há um interno e um externo. Os que ali estão nos internos se chamam anjos internos, mas os que estão nos externos se chamam anjos externos. Dá-se com o externo e o interno nos céus, ou em cada céu, do mesmo modo que com o voluntário e seu intelectual no homem: o interno, como o voluntário, e o externo, como o seu intelectual. Todo voluntário tem o seu intelectual; um não existe sem o outro. Comparativamente, o voluntário é como a chama e o seu intelectual como a luz oriunda daí.

33. Deve-se saber muito bem que os interiores nos anjos fazem que estejam em um ou em outro céu. De fato, aqueles cujos interiores são mais abertos ao Senhor estão no céu interior. Há três graus de interiores em cada um, tanto no anjo quanto no espírito e, também, no homem. Aqueles cujo grau terceiro foi aberto estão no céu íntimo; aqueles cujo grau segundo ou somente o primeiro foi aberto estão no céu médio ou no extremo. Os interiores são abertos pela recepção do Divino bem e do Divino vero. Os que são tocados pelos Divinos veros e os admitem imediatamente na vida, portanto, na vontade e, assim, na ação, estão no céu íntimo ou terceiro e, ali, segundo a recepção do bem pela afeição do vero. Os que, porém, não os admitem imediatamente na vontade, mas na memória e, portanto, no entendimento e por esse meio os querem e praticam, esses estão no céu médio ou segundo. E os que vivem moralmente e crêem no Divino, não cuidando tanto em se instruírem, estão no céu extremo ou primeiro. Assim se pode ver que os estados dos interiores fazem o céu e que o céu está dentro de cada um e não fora dele. Isso o Senhor também ensina, dizendo:

"O reino de Deus não vem com observação, nem dirão: Ei-lo aqui, ou, ei-lo ali. Pois eis que tendes o reino de Deus em vós" (Luc. 17:20, 21).

34. Também, toda perfeição aumenta em direção aos interiores e diminui em direção aos exteriores, porquanto os interiores estão mais perto do Divino e são em si mais puros, enquanto os exteriores são mais afastados do Divino e são em si mais grosseiros. A perfeição angélica consiste na inteligência, na sabedoria, no amor, em todo bem e, por conseguinte, na felicidade; não, porém, na felicidade sem tais coisas, pois a felicidade sem elas é externa e não interna. Visto que os interiores nos anjos do céu íntimo foram abertos ao terceiro grau, por isso a perfeição deles supera imensamente a perfeição dos anjos no céu médio, cujos interiores foram abertos ao segundo grau. A perfeição dos anjos do céu médio excede de modo semelhante à perfeição dos anjos do céu extremo.

35. Como há tal diferença, o anjo de um céu não pode entrar onde estão os anjos de outro céu, ou alguém subir de um céu inferior, tampouco alguém descer de um céu superior. Aquele que sobe de um céu inferior é acometido de ansiedade até a dor e não pode ver os que se acham ali, ainda menos falar com eles. E aquele que desce de um céu superior é privado de sua sabedoria, hesita na fala e se desespera. Houve alguns, do céu extremo, que ainda não tinham sido instruídos de que o céu consiste em anjos interiores e acreditavam que viriam a uma felicidade celeste superior se somente estivessem no céu onde estão tais anjos. Foi-lhes permitido ir e estar entre eles, mas, quando lá estavam, onde quer que procurassem não viam ninguém, embora houvesse ali uma grande multidão. Com efeito, os interiores desses visitantes não eram abertos no mesmo grau que o dos anjos interiores que estavam ali; assim, não eram vistos. E pouco depois foram acometidos de uma intensa dor de coração, a ponto de mal saberem se tinham vida ou não. Por causa disso, saíram depressa dali e se recolheram ao céu de onde eram, contentes por estarem entre os seus; prometeram que não mais desejariam coisas mais altas do que as que concordem com as suas vidas. Vi, também, uns sendo baixados de um céu superior e privados de sua sabedoria, a ponto de não saberem de qual céu eram. Acontece de outro modo quando o Senhor eleva alguns de um céu inferior a um superior, para que vejam a glória ali, o que acontece muitas vezes; então, são primeiro preparados e acompanhados por anjos intermediários, por quem haja comunicação. Por aí se torna evidente que os três céus são muito distintos entre si.

36. Aqueles, porém, que estão no mesmo céu podem ser consociados com qualquer um ali e os prazeres da consociação são segundo as afinidades do bem em que estão. Mas, sobre esse assunto, tratar-se-á nos capítulos seguintes.

37. Contudo, ainda que os céus sejam entre si tão distintos que os anjos de um céu não possam compartilhar atividades com os anjos de outro, mesmo assim o Senhor conjunge todos os céus por meio do influxo imediato e mediato. Pelo influxo imediato vindo de Si em todos os céus; e por um mediato, por meio de um céu no outro. E assim acontece que os três são um só e todos estão em conexão desde o Primeiro até o último, a ponto de não existir algo desconexo. O que não estiver em conexão por intermediários com o Primeiro, isso nem subsiste, mas é dissipado e se torna nada.

38. Quem não sabe como se dá com a ordem Divina quanto aos graus não pode compreender de que maneira os céus são distintos, nem o que é o homem interno e externo. A maioria das pessoas no mundo não tem outra noção sobre os interiores e exteriores, ou sobre os superiores e inferiores, a não ser a de algo contínuo ou coerente por continuidade desde o mais puro até o mais grosseiro. Contudo, os interiores e exteriores não se relacionam continuamente, mas discretamente. Há dois gêneros de graus; há os graus contínuos e há os graus não contínuos. Os graus contínuos são como os graus de diminuição da luz, desde a chama até à sua obscuridade; ou como os graus de diminuição da visão das coisas que estão na luz até às coisas que estão na sombra; ou como os graus de pureza da atmosfera desde a sua parte mais baixa até à sua parte mais alta. As distâncias é que determinam esses graus. [2] Porém os graus não contínuos, mas discretos, são discriminados como o anterior e o posterior, como a causa e o efeito e como o que produz e o produto. Quem examinar verá que em todas e cada uma das coisas, em todo o mundo, quaisquer que sejam, há tais graus de produção e composição, a saber, que vão de um a outro e daí a um terceiro e assim por diante. [3] Quem não adquire para si a percepção desses graus não pode de modo algum conhecer a diferença dos céus e a diferença das faculdades interiores e exteriores do homem, tampouco diferencia o mundo espiritual do mundo natural, nem diferencia o espírito do homem do seu corpo e, assim, não pode entender o que são nem de onde vêm as correspondências e as representações, tampouco a natureza do influxo. Os homens sensuais não compreendem essas diferenças, pois percebem os aumentos e as diminuições também segundo esses graus contínuos; assim, não podem conceber o espiritual como outra coisa senão um natural mais puro. Por isso se põem de fora e muito distantes da inteligência.

39. Por último, é permitido relatar, a respeito dos anjos dos três céus, certo arcano que não veio à mente alguma, porque os graus não foram compreendidos, a saber, que em cada anjo e em cada homem existem graus íntimos ou supremos, ou certo íntimo e supremo em que o Divino do Senhor influi primeiro ou de mais perto e, a partir do qual, Ele dispõe as demais coisas interiores, que se sucedem segundo os graus da ordem neles. Esse íntimo ou supremo pode ser chamado entrada do Senhor para o anjo e para o homem e é a Sua morada mesma neles. Por esse íntimo ou supremo o homem é homem e se distingue dos animais brutos, pois estes não o têm. Por isso é que, diferentemente dos animais, o homem pode, quanto a todas as coisas interiores, que são de sua mente e disposição, ser elevado pelo Senhor a Ele, crer n’Ele, ser tocado pelo amor a Ele e, assim, vê-Lo, podendo receber inteligência, sabedoria e falar pela razão. Assim é, também, que ele vive eternamente. Mas o que é disposto e provido pelo Senhor no íntimo do homem não influi de modo manifesto à percepção de anjo algum, porque está acima de seu pensamento e transcende a sua sabedoria.

40. Ora, essas são as coisas gerais sobre os três céus. Na seqüência, porém, falar-se-á em particular sobre cada um dos céus.

6. Os céus consistem em inúmeras sociedades

41. Os anjos de cada um dos céus não estão juntos em um mesmo lugar, mas distintos em sociedades maiores e menores, segundo as diferenças do bem do amor e da fé em que estão. Os que estão em um bem semelhante formam uma só sociedade. Os bens no céu são de uma variedade infinita e cada anjo é segundo o seu bem.

42. As sociedades angélicas nos céus também se distanciam entre si segundo os bens diferenciam em gênero e em espécie, pois as distâncias no mundo espiritual não são de outra origem senão a diferença dos estados interiores; assim, nos céus, elas se distanciam pela diferença dos estados do amor. Ficam muito distantes as que diferem muito e pouco distantes as que diferem pouco. A semelhança faz que sejam uma só.

43. Todos, em uma só sociedade, são semelhantemente distintos entre si: os que são mais perfeitos, isto é, os que excedem em bem, assim, em amor, sabedoria e inteligência, estão no meio; os que excedem menos estão em torno, a determinada distância segundo o grau em que diminui a perfeição. Dá-se com isso como com a luz, que diminui do meio para as periferias. Os que estão no meio também estão na luz máxima e os que estão na periferia, numa luz cada vez menor.

44. Os semelhantes são levados aos semelhantes como por si mesmos, pois estão com os semelhantes como se estivessem com os seus e como se estivessem em casa, mas, com os outros, como se estivessem com estrangeiros e como se estivessem fora. Quando estão com os semelhantes, estão, também, em sua liberdade e, assim, em todo o prazer da vida.

45. Assim é evidente que o bem consocia a todos nos céus e que ali se é distinguido segundo sua qualidade. Todavia, não são os anjos que assim se consociam, mas o Senhor, de Quem o bem procede. Ele os conduz, conjunge, distingue e mantém tanto na liberdade quanto no bem, assim, a cada um na vida de seu amor, sua fé, sua inteligência e sabedoria e, assim, na felicidade.

46. Todos os que estão em um bem semelhante se conhecem, ainda que nunca se tenham visto antes, exatamente como as pessoas no mundo conhecem os seus parentes, seus afins e seus amigos. A razão disso é porque na outra vida não há outros parentescos, afinidades e amizades senão espirituais, assim, as que são do amor e da fé. Foi-me concedido ver isso algumas vezes, quando estava em espírito, portanto retirado do corpo e, por conseguinte, em consociação com os anjos. Então vi alguns deles como se fossem conhecidos de infância, mas outros inteiramente desconhecidos. Os que vi como conhecidos de infância foram aqueles que eram de um estado semelhante ao estado de meu espírito, mas os desconhecidos, de um estado dessemelhante.

47. Todos os que formam uma só sociedade angélica são de uma face semelhante no geral, mas não semelhante no particular. A maneira como se dá com as semelhanças no geral e com as variações no particular pode ser de algum modo compreendida por certas coisas no mundo: é sabido que cada povo apresenta algo em comum nas faces e nos olhos pelo qual é conhecido e discernido dos outros povos, ainda mais uma família da outra. Mas isso é muito mais perfeito nos céus, porque ali todas as afeições interiores aparecem e brilham na face, pois a face ali é a forma externa e representativa delas. No céu não acontece de se ter uma face diferente de suas afeições. Foi mostrado, também, de que modo a semelhança no geral varia particularmente em cada um dos que estão em uma só sociedade: havia uma face que me apareceu como se angélica e que variava segundo as afeições do bem e do vero quais as que estavam naqueles que se achavam em uma só sociedade. Essas variações persistiam por um longo tempo e eu observava que, embora a mesma face permanecesse como num plano geral, as restantes eram somente derivações e propagações daquela. Assim, por essa mesma face foram mostradas as afeições de toda uma sociedade, pelas quais variavam as faces dos que ali se achavam. Porque, como foi dito acima, as faces angélicas são suas formas interiores, assim, formas das afeições que são do amor e da fé.

48. Assim, acontece também que um anjo que excede em sabedoria logo vê, pela face, o que um outro anjo é. Ali, ninguém pode pelo semblante esconder os interiores e dissimular, nem, absolutamente, mentir e enganar com astúcia e hipocrisia. Acontece algumas vezes que nas sociedades se insinuem hipócritas, que aprenderam a esconder os seus interiores e compor os exteriores para que apareçam na forma do bem em que estão os da sociedade e, assim, fingirem ser anjos de luz. Mas esses não podem se demorar ali por muito tempo, pois começam a ser atormentados por uma dor interior e ficam com a face lívida e como que ofegantes. São mudados assim por causa da oposição da vida que influi e opera; por isso, precipitam-se repentinamente no inferno onde estão os seus semelhantes, nem se atrevem mais a subir. São esses os que se entendem por aquele homem que foi achado entre os comensais e os convidados sem estar vestido da veste nupcial e que foi lançado nas trevas exteriores (Mat. 22: 11 e seq.).

49. Todas as sociedades do céu comunicam-se entre si, não por um intercurso aberto, visto que poucos vão de sua sociedade a uma outra, porquanto sair da sociedade é como sair de si ou de sua vida e passar para uma outra que não convém tanto. Mas todas se comunicam pela extensão da esfera que procede da vida de cada um. A esfera de vida é a esfera das afeições que são do amor e da fé; ela se estende a todas as sociedades ao redor, em comprimento e em largura; e quanto mais as afeições forem mais interiores e mais perfeitas, mais em comprimento e mais em largura. Segundo essa extensão há para os anjos inteligência e sabedoria. Os que estão no céu íntimo e, ali, no meio, têm extensão em todo o céu. Assim, a comunicação do céu é de todos com cada um e de cada um com todos. Mas deve-se tratar mais plenamente, adiante, dessa extensão, onde se tratará da forma celeste segundo a qual as sociedades angélicas se acham dispostas e, também, onde se tratará da sabedoria e da inteligência dos anjos, pois toda extensão das afeições e dos pensamentos avança segundo essa forma.

50. Foi dito acima que nos céus há sociedades maiores e menores; as maiores consistem em miríades, as menores em alguns milhares e, as mínimas, em algumas centenas de anjos. Também há alguns que habitam solitariamente, como por casas e casas, famílias e famílias. Esses, ainda que vivam dispersamente, estão ainda ordenados de modo semelhante ao dos que estão nas sociedades, a saber, os mais sábios deles estão no meio e os mais simples nos limites. Esses estão mais perto do Divino auspício do Senhor e são os melhores dos anjos.

7. Cada sociedade é um céu na menor forma e cada anjo o é na mínima forma

51. Que cada sociedade seja o céu na menor forma e cada anjo na mínima, é porque o bem do amor e da fé faz o céu e esse bem está em toda sociedade do céu e em todo anjo da sociedade. Não importa que esse bem seja diferente e variado em toda parte; é sempre o bem do céu. A diferença está somente em que o céu é assim aqui e de outra maneira ali. Assim é que se diz, quando alguém é elevado a alguma sociedade do céu, que vai ao céu e, dos que ali se acham, que estão no céu e cada um no seu. Todos os que estão na outra vida sabem disso. Assim, aqueles que estão fora ou abaixo do céu e olham de longe para onde os anjos se acham reunidos dizem que o céu está ali e também lá. Dá-se com isso como com os governantes, oficiais e ministros em um só palácio real ou em uma só corte; ainda que habitem separadamente em suas moradas ou em seus quartos, uns acima outros abaixo, estão, no entanto, em um só palácio ou em uma só corte, cada um ali em sua função para servir ao rei. Assim, é evidente o que se entende por essas palavras do Senhor:

"Na casa de Seu Pai há muitas moradas" (Jo. 14:2),

e o que se entende por "habitáculos do céu" e por "céus dos céus", nos Profetas.

52. Que cada sociedade seja o céu na menor forma, também se pode ver pelo fato de que uma forma celeste similar está em cada sociedade, como está em todo o céu. Em todo o céu, estão no meio aqueles que excedem os demais; e ao redor, até os limites, em ordem decrescente, estão o que excedem menos, como foi dito e pode ser visto num capítulo precedente (n°. 43). E também pelo fato de o Senhor conduzir a todos no céu como se fossem um único anjo. Dá-se de modo semelhante com aqueles que estão em cada sociedade. Por isso uma sociedade inteira aparece, às vezes, como uma só, na forma de um anjo, o que também me foi concedido ver pelo Senhor. Quando, também, o Senhor aparece no meio dos anjos, então não aparece circundado por muitos, mas como Um, na forma angélica. Assim é que, na Palavra, o Senhor é chamado Anjo, como também uma sociedade inteira é assim chamada. Miguel, Gabriel e Rafael não são outra coisa senão sociedades angélicas que são nomeadas assim por causa de suas funções.

53. Assim como uma sociedade inteira é o céu na menor forma, assim também o anjo é um céu na mínima, pois o céu não está fora do anjo, mas dentro dele. Com efeito, seus interiores, que são de sua mente, foram dispostos na forma do céu, assim, para recepção de tudo que no céu está fora deles. Ele o recebe também segundo a qualidade do bem que está nele pelo Senhor. Por isso é que um anjo é também um céu.

54. Não se pode dizer jamais que o céu esteja fora de alguém, mas dentro, porque todo anjo recebe o céu que está fora dele segundo a forma do céu que está dentro dele. Assim, é evidente o quanto se engana aquele que crê que vir ao céu é somente ser elevado entre os anjos, qualquer que seja ele quanto à sua vida interior, portanto, que o céu é dado a cada um por misericórdia imediata, quando, todavia, o fato é que nada do céu que está fora influi nem é recebido, a não ser que o céu esteja dentro de alguém. Há muitos espíritos que, estando em tal opinião (e isso também por causa de sua fé), foram levados ao céu. Mas, quando ali estavam, porquanto a sua vida era contrária à vida dos anjos, começaram a ficar cegos quanto às suas coisas intelectuais até se tornarem como tolos; e, quanto às suas coisas voluntárias, começaram a ser atormentados até se verem como dementes. Numa palavra, os que vivem no mal e vêm ao céu respiram ali com dificuldade e são torturados como um peixe fora da água, na atmosfera, e como animais no éter, em máquinas pneumáticas de que foi extraído o ar. Assim se pode ver que o céu está dentro e não fora de alguém.

55. Uma vez que todos recebem o céu, que está fora deles, segundo a qualidade do céu que está dentro deles, assim recebem, semelhantemente, o Senhor, porque o Divino do Senhor faz o céu. Assim é que, quando o Senhor Se mostra presente em alguma sociedade, ali aparece segundo a qualidade do bem em que a sociedade está e não de um mesmo modo numa sociedade que em outra. Não que essa dessemelhança esteja no Senhor, mas naqueles que O vêem por seu bem, assim, segundo esse bem. Também são tocados pela visão segundo a qualidade de seu amor; os que O amam íntimamente são íntimamente tocados; os que amam menos, menos tocados. Os maus, que estão fora do céu, são atormentados pela presença d’Ele. Quando o Senhor aparece em alguma sociedade, aparece ali como Anjo, mas é distinguido dos outros pelo Divino que transluz.

56. O céu também está onde o Senhor é reconhecido, crido e amado. A variedade do culto a Ele, decorrente da variedade do bem em uma sociedade e em outra, não é prejudicial mas proveitosa, pois nisso consiste a perfeição do céu. Que a perfeição do céu venha daí, dificilmente pode ser explicado à compreensão, a não ser que se empreguem expressões comuns usadas no mundo literato e por elas seja exposto de que modo é perfeita a unidade que é formada de vários. Toda unidade existe por coisas variadas, pois a unidade que não vem de variedades não é coisa alguma, não tem forma e, assim, não tem qualidade. Mas quando a unidade existe de variedades e as variedades estão numa forma perfeita, na qual tudo se adjunta à outra em série como amigo concordante, então tem qualidade perfeita. O céu é, também, uma unidade de variedades ordenadas numa forma perfeitíssima, pois a forma celeste é a mais perfeita de todas as formas. Que toda perfeição exista daí, vê-se por toda beleza, toda amenidade e todo prazer que tocam tanto os sentidos quanto a mente. De fato, esses não existem nem fluem de outra parte senão da conformidade e da harmonia de muitos concordantes e conformes, sejam coexistentes nessa ordem, sejam na ordem conseqüente e não de um sem a pluralidade. Daí se dizer que a variedade deleita e sabe-se que o deleite é segundo sua qualidade. Por aí se pode ver, como num espelho, donde vem a perfeição da variedade também no céu, pois, pelas coisas que existem no mundo natural, podem ser vistas, como num espelho, as que estão no mundo espiritual.

57. Pode-se dizer sobre a igreja o mesmo que foi dito sobre o céu, pois a igreja é o céu do Senhor nas terras. As igrejas, também, são muitas e, todavia, cada uma é chamada igreja e é uma igreja tanto quanto nela reinar o bem do amor e da fé. Aí, também, o Senhor, de várias faz uma só; assim, de muitas, faz uma só igreja. Coisa semelhante ao que se diz da igreja em geral pode-se dizer do homem da igreja em particular, a saber, que a igreja está dentro do homem e não fora dele; e em qualquer homem que é uma igreja o Senhor está presente no bem do amor e da fé. Pode-se também dizer do homem em quem está a igreja o mesmo que se diz do anjo em quem está o céu: ele é uma igreja na menor forma, assim como o anjo é o céu na mínima forma. E, ainda mais, o homem em quem está a igreja é um céu, igualmente ao anjo. Pois o homem foi criado para que venha ao céu e se torne anjo; por isso, aquele em quem está o bem do Senhor é um anjo-homem. É lícito lembrar o que o homem tem em comum com o anjo e o que tem a mais que os anjos. O homem tem em comum com o anjo que os seus interiores foram igualmente formados à imagem do céu e também se torna uma imagem do céu tanto quanto estiver no bem do amor e da fé. O homem tem a mais do que os anjos que os seus exteriores foram formados à imagem do mundo e, tanto quanto estiver no bem, o mundo nele é subordinado ao céu, para que sirva ao céu. E, então, o Senhor está presente em ambos como em seu céu. Com efeito, há a ordem Divina em um e outro, pois Deus é a ordem.

58. Por último, deve-se lembrar que aquele que tem em si o céu não somente tem o céu em seus máximos ou gerais, mas também em seus mínimos ou singulares; e os mínimos, aí, se referem aos máximos em imagem. Isso ocorre pelo seguinte: cada um é o seu amor e tal qual é o seu amor reinante. O que reina influi nos singulares, os dispõe, induz uma semelhança sua em toda parte e faz que o céu esteja onde ele está. Assim, um anjo é o céu na mínima forma, uma sociedade o é na maior e todas as sociedades tomadas juntamente o são na máxima. Que o Divino do Senhor faça o céu e que o céu seja tudo em todos, viu-se acima (ns. 7-12).

8. Todo o céu em um só conjunto representa um só homem

59. Que todo o céu em um só conjunto represente um só homem, é um arcano ainda não sabido no mundo, mas muito conhecido no céu. Saber isso e as coisas específicas e singulares daí é o princípio da inteligência dos anjos ali. Disso também dependem muitas coisas que, sem essa idéia como seu princípio geral, não podem entrar distinta e claramente nas idéias de suas mentes. Visto que [os anjos] sabem que todos os céus, com as suas sociedades, representam um só homem, por isso também chamam o céu de Máximo e Divino Homem. Divino, pelo fato de o Divino do Senhor fazer o céu (veja-se acima, ns. 7-12).

60. Que as coisas celestes e espirituais sejam ordenadas e conjuntas nessa forma e nessa imagem, os que não têm uma idéia justa a respeito dos espirituais e celestes não podem perceber. Eles pensam que as coisas terrestres e materiais, que compõem o último do homem, o constituem e que o homem não é homem sem elas. Mas saibam que o homem não é homem por elas, mas pelo fato de poder entender o vero e querer o bem; essas são coisas espirituais e celestes e elas fazem o homem. O homem também sabe que, qualquer que um homem seja, ele é tal qual o entendimento e a vontade; e também pode saber que seu corpo terrestre é formado para servir ao entendimento e à vontade no mundo e para prestar-lhes usos em conformidade com a última esfera da natureza. Por isso, também, o corpo em nada atua por si, mas é atuado em inteira obediência ao comando do entendimento e da vontade, a ponto de que tudo o que o homem pensa, isso fala pela língua e pela boca; e tudo o que quer, isso faz pelo corpo e pelos membros, de modo que é o entendimento e a vontade que agem e não o corpo em si. Assim, é evidente que as coisas intelectuais e voluntárias fazem o homem e estão numa forma similar, pois agem nas coisas mais singulares do corpo, como o interno no externo. E é assim que, por elas, o homem é chamado homem interno e espiritual. O céu é tal homem na forma máxima e perfeitíssima.

61. Essa é a idéia dos anjos a respeito do homem. Por isso, nunca prestam atenção ao que o homem faz pelo corpo, mas à vontade pela qual o corpo faz; a essa vontade eles chamam homem mesmo e ao entendimento tanto quanto esse atue em comum com a vontade.

62. Na realidade, os anjos não vêem o céu em todo o conjunto numa tal forma, pois o céu como um todo não se mostra à vista de anjo algum; mas vêem, às vezes, que as sociedades distantes, que consistem em milhares de anjos, são uma só em tal forma e, pela sociedade, como por uma parte, concluem o que é o céu no geral. Porque numa forma perfeitíssima os gerais são como as partes e as partes como os gerais; a diferença é somente a que existe entre semelhantes maiores e menores. Assim, dizem que o céu é tal à vista do Senhor, porque o Divino vê todas as coisas pelo íntimo e pelo supremo.

63. Como o céu é assim, por isso também é governado pelo Senhor como um único homem e, assim, como uma unidade. Pois se sabe que, embora o homem consista de coisas variadas e inumeráveis, tanto no todo quanto na parte - no todo pelos membros, órgãos e vísceras; na parte, pelas séries de fibras, nervos e vasos sangüíneos, assim, por membros dentro de membros e partes dentro de partes - ainda assim, o homem, quando age, age como um só. Tal é, também, o céu sob o auspício e a direção do Senhor.

64. Que no homem tantas coisas variadas atuem como uma só, é porque nada há ali que não faça algo ou não preste um uso para a coisa geral. O geral presta uso para as suas partes e as partes prestam uso para o geral, pois o geral provém das partes e as partes constituem o geral; por isso, visam um ao outro, observam-se mutuamente e são conjuntos numa forma tal que todas e cada uma das coisas se referem ao geral e ao seu bem. Portanto, agem como um só. As consociações são semelhantes no céu, conjuntas ali segundo os usos numa forma similar. Por isso, os que não prestam uso ao geral são removidos do céu, porque são heterogêneos. Prestar uso é querer bem aos outros por causa do bem geral, e não prestar uso é querer bem aos outros não por causa do bem geral, mas por causa de si. Estes são os que se amam acima de todas as coisas, mas aqueles são os que amam ao Senhor acima de todas as coisas. Assim, os que estão no céu agem como um só, não, porém, por si, mas pelo Senhor. Com efeito, visam a Ele como Única origem e ao Seu reino como o geral de que se deve cuidar. Isso é o que se entende por essas palavras do Senhor:

"Buscai... primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e... todas as coisas vos serão acrescentadas" (Mat. 6:33);

"buscar a sua justiça" é o seu bem. Os que no mundo amam o bem da pátria mais do que o seu e ao próximo como a si mesmo, esses são os que, na outra vida, amam e buscam o reino do Senhor, pois, ali, o reino do Senhor está em lugar da pátria; e os que amam fazer bem aos outros não por causa de si, mas por causa do bem, esses amam o próximo, pois o bem ali é o próximo; todos os que são tais estão no céu, isto é, no Máximo Homem.

65. Visto que todo o céu representa um só homem e é, também, o Homem Divino espiritual na máxima forma e também em efígie, por isso o céu se distingue em membros e partes, como o homem, e também é igualmente nomeado. Os anjos até sabem em que membro está uma sociedade e em que membro outra; dizem que essa sociedade está no membro ou em alguma província da cabeça, aquela no membro ou em alguma província do peito, aquela outra no membro ou em alguma província dos lombos e assim por diante. Em geral, o céu supremo ou terceiro forma a cabeça até o pescoço; o céu médio ou segundo forma o peito até os lombos e joelhos; o céu extremo ou primeiro forma os pés até as plantas e também os braços até os dedos, pois os braços e as mãos são os últimos do homem, embora estejam dos lados. Assim se vê, novamente, por que há três céus.

66. Os espíritos, que estão abaixo do céu, ficam muito admirados quando ouvem e vêem que o céu está tanto embaixo quanto em cima; estão, com efeito, na mesma fé e opinião em que estão os homens no mundo, ou seja, que o céu não está em outra parte senão em cima, pois não sabem que a situação dos céus é como a situação dos membros, órgãos e vísceras no homem, dos quais alguns estão em cima e alguns embaixo, e que se situam como as partes em cada um dos membros, órgãos e vísceras, das quais alguns estão dentro, outros fora. Por isso se confundem a respeito do céu.

67. Essas coisas, sobre o céu como o Máximo Homem, foram acrescentadas porque, sem esse conhecimento prévio, de nenhum modo podem ser compreendidas as coisas que se seguem sobre o céu nem se pode ter alguma idéia distinta sobre a forma do céu, sobre a conjunção do Senhor com o céu, sobre a conjunção do céu com o homem nem sobre o influxo do mundo espiritual no natural e nenhuma idéia, absolutamente, sobre a correspondência, de que, todavia, se deve tratar na seqüência. Por esse motivo, faz-se essa premissa para elucidar esses pontos.

9. Cada sociedade nos céus representa um só homem

68. Que cada sociedade do céu também represente um só homem e também seja a semelhança de um homem, foi-me dado ver algumas vezes. Havia uma sociedade em que se insinuaram muitos que aprenderam a simular os anjos de luz; eram hipócritas. Quando esses foram separados dos anjos, vi que toda a sociedade primeiro apareceu como algo obscuro, depois, por graus, numa forma humana também obscuramente e, finalmente, na luz, como um homem. Aqueles que estavam no homem e o compunham eram os que estavam no bem daquela sociedade. Os outros, que não estavam no homem e não o compunham, eram os hipócritas; esses foram rejeitados e aqueles retidos; assim se fez a separação. Hipócritas são os que falam do bem e também fazem o bem, mas visam a si mesmos em todas as coisas; como os anjos, falam do Senhor, do céu, do amor e da vida celeste e também fazem o bem para que pareçam ser tais como falam, mas pensam de modo diferente, em nada crêem nem querem coisa alguma de bem, senão o que beneficie a si mesmos e por causa de si mesmos. Se fizerem algo pelos outros é para que sejam vistos e assim, também, por causa de si mesmos.

69. Também me foi concedido ver que uma sociedade angélica toda aparece como uma, em forma humana, quando o Senhor Se faz presente. No alto, do lado do oriente, apareceu uma nuvem de um branco que se avermelhava, com estrelinhas ao redor. Gradativamente ela descia e se tornava mais luminosa, até que finalmente foi vista numa forma perfeitamente humana. As estrelinhas ao redor da nuvem eram os anjos, que apareciam assim pela luz proveniente do Senhor.

70. Cumpre saber que, embora todos os que estão em uma sociedade do céu apareçam na semelhança de um homem quando se mostram como um todo, todavia uma sociedade não é um homem semelhantemente a outra, mas se distinguem entre si como as faces humanas de uma só raça, de que se tratou acima (n°. 47), a saber, variam segundo as variedades do bem em que estão e que as forma. As sociedades que estão no céu íntimo ou supremo e, ali, no meio, aparecem numa forma humana perfeitíssima.

71. É digno de se lembrar que, quanto mais forem e agirem como um os que estão numa sociedade do céu, mais perfeita é a sua forma, pois a variedade disposta na forma celeste faz a perfeição, como foi mostrado antes (n°. 56) e a variedade existe onde houver muitos. Também, toda sociedade do céu aumenta em número diariamente e, à medida que cresce, mais perfeita se torna, de modo que não somente a sociedade é aperfeiçoada, mas também o céu em geral, porque as sociedades constituem o céu. Uma vez que o céu é aperfeiçoado por uma multidão crescente, vê-se o quanto se enganam aqueles que crêem que o céu é limitado pela plenitude, quando, todavia, dá-se o contrário: nunca é limitado e uma plenitude cada vez maior o aperfeiçoa. Por causa disso, os anjos nada desejam mais do que a vinda de novos anjos moradores.

72. Que cada sociedade seja uma efígie de homem quando se mostra como um todo, é porque o céu todo tem essa efígie – como pode ser visto pelo que se mostrou no capítulo precedente – e isso numa forma perfeitíssima, tal qual a forma do céu. A semelhança é das partes com o todo e dos mínimos com o máximo. Os mínimos e as partes do céu são as sociedades de que esse consiste, as quais são, também, o céu na menor forma; veja-se acima (ns. 51-58). Que tal semelhança seja perpétua, é porque no céu os bens de todos vêm de um único amor, assim, de uma única origem. O amor único do qual é a origem de todos os bens ali é o amor ao Senhor e proveniente do Senhor. Assim, todo o céu é uma semelhança d´Ele no geral, cada sociedade o é no menos geral e cada anjo no particular. Vejam-se também, acima, as coisas que foram ditas (n°. 58) sobre esse assunto.

10. Cada anjo é uma perfeita forma humana

73. Nos dois capítulos precedentes mostrou-se que o céu em todo o complexo e, do mesmo modo, cada sociedade no céu, representam um só homem. Da conexão das razões que aqui foram trazidas, segue-se que cada anjo representa igualmente o mesmo. Assim como o céu é um homem na forma máxima e uma sociedade do céu o é na menor, também o anjo o é na mínima, pois, numa forma perfeitíssima, tal como é a forma do céu, a semelhança do todo está na parte e a da parte no todo. A razão de isso ser assim é que o céu é uma comunhão, pois comunica todas as suas coisas com cada um e cada um recebe dessa comunhão todas as coisas suas. O anjo é um receptáculo e, assim, um céu na mínima forma, como também foi mostrado acima no capítulo próprio. O homem também, tanto quanto recebe o céu, na mesma medida também é um receptáculo, é um céu e é um anjo (veja-se acima, n. 75). Isso se descreve assim, no Apocalipse:

"Foi medido o muro" da santa Jerusalém, "cento e quarenta e quatro côvados, medida de homem, que é do anjo" (21:17).

"Jerusalém", aí, é a igreja do Senhor e, no sentido mais eminente, o céu; o "muro" é o vero que protege dos assaltos dos falsos e males; "cento e quarenta e quatro" são todos os veros e bens no complexo; "medida" é a sua qualidade; "homem" é aquele em que estão todas essas coisas no geral e no particular, assim, em que está o céu; e, como por elas o anjo também é homem, daí ser dito "medida de homem, que é a do anjo". Este é o sentido espiritual dessas palavras. Sem esse sentido, quem iria entender que o muro da santa Jerusalém é medida de homem que é do anjo?

74. Mas recorro agora à experiência. Que os anjos sejam formas humanas ou de homens, vi isso mil vezes, pois falei com eles como homem com homem, às vezes com um, às vezes com muitos reunidos, e não vi neles coisa alguma que diferenciasse do homem quanto à forma e algumas vezes fiquei admirado de que fossem tais; e para que não se diga que foi falácia ou visão de fantasia, foi-me concedido vê-los em plena vigília ou quando estava em todo o sentido do corpo e num estado de clara percepção. Freqüentemente lhes contei que os homens no mundo cristão estão numa ignorância tão cega sobre os anjos e os espíritos que acreditam serem eles mentes sem forma ou puros pensamentos, a cujo respeito não têm outra idéia a não ser de algo como etéreo em que existe algum sinal de vida; e porque, assim, não lhes atribuem coisa alguma do homem além do cogitativo, crêem que não vêem porque não têm olhos, não ouvem porque não têm ouvidos e não falam porque não têm boca nem língua. [2] A isso os anjos replicaram que sabem que tal fé existe em muitos no mundo, que ela reina nos eruditos e, do que se admiraram, nos sacerdotes. Disseram, também, que a causa disso é que os eruditos, que foram os líderes e os primeiros a gerarem tal idéia sobre os anjos e os espíritos, tinham pensado sobre eles pelos sensuais do homem externo, e os que pensam assim e não por uma luz interior e uma idéia geral que se acha inscrita em cada um não podem senão imaginar as idéias referidas, porquanto os sensuais do homem externo não compreendem outra coisa senão as que se acham na natureza e não as que estão acima, assim, nada que seja do mundo espiritual. Desses líderes e guias a falsidade do pensamento sobre os anjos foi passada para os outros, que não pensaram por si mesmos, mas por eles. E os que pensam primeiro pelos outros e fazem sua fé para em seguida examinar por ela o entendimento dificilmente podem se afastar disso. Por isso a maioria das pessoas se contenta em confirmá-las. [3] Disseram, além disso, que os simples de fé e de coração não estão nessa idéia sobre os anjos, mas na idéia deles como de homens do céu, em razão de não terem, pela erudição, extinguido a sua idéia inata que vem do céu, nem compreendem coisa alguma sem forma. Assim é que os anjos nos templos, quer esculpidos, quer em gravuras, não são apresentados senão como homens. Sobre essa idéia inata [insitum] que vem do céu disseram que é o Divino influindo naqueles que estão no bem da fé e da vida.

75. De toda a experiência, que agora é de muitos anos, posso dizer e asseverar que os anjos são inteiramente homens quanto à forma; eles têm faces, têm olhos, ouvidos, peito, braços, mãos e pés; vêem-se mutuamente, ouvem e falam entre si. Numa palavra, nada absolutamente lhes falta do que é do homem, exceto que não se acham revestidos do material corpóreo. Eu os vi em sua luz, luz essa que excede em muitos graus à luz do meio-dia e nela vi todas as coisas de seu aspecto mais distinta e mais claramente do que o aspecto dos homens da terra. Foi concedido ver também o anjo do céu íntimo: seu aspecto era mais brilhante e mais resplandecente que o dos anjos dos céus inferiores; examinei-o e ele era forma humana em toda a perfeição.

76. Cumpre, porém, saber que os anjos, pelos olhos de seu corpo, não podem ver o homem, mas pelos olhos do espírito que está no homem, porque esse está no mundo espiritual e todas as coisas do corpo estão no natural. O semelhante vê o semelhante, por causa da similaridade. Além do mais, o órgão da visão do corpo, que é o olho, é tão grosseiro que não pode ver sequer as menores coisas da natureza a não ser por uma lente, como cada um o sabe, e ainda menos as coisas que se acham acima da esfera da natureza, quais são todas as que estão no mundo espiritual. Essas coisas, porém, são vistas pelo homem quando está removido da visão do corpo e a visão do espírito está aberta, o que também se dá num momento, quando apraz ao Senhor que tais coisas sejam vistas. E então o homem não sabe outra coisa senão que vê com os olhos do corpo. Assim os anjos foram vistos por Abrahão, Ló, Manoá e os profetas; assim, também, o Senhor foi visto, após a ressurreição, pelos discípulos. De modo semelhante os anjos também foram visto por mim. Como os profetas viram assim, por isso foram chamados "videntes" e "de olhos abertos" (I Sam. 9:9, Núm. 24:3). E fazer com que se veja assim é "abrir os olhos", como foi feito ao moço de Eliseu, do qual se lê:

"Orando, Eliseu disse: Jehovah, abre, peço-Te, os seus olhos para que veja; e abrindo Jehovah os olhos do seu moço, viu e eis que o monte estava cheio de cavalos e carros de fogo, em redor de Eliseu" (II Re. 6:17).

77. Espíritos probos, com quem também falei sobre esse assunto, lastimaram de coração que exista na igreja tal ignorância sobre o estado do céu e sobre os espíritos e os anjos; e, indignados, diziam que eu enfaticamente dissesse que eles não são mentes sem forma nem sopros etéreos, mas são homens em efígie e vêem, ouvem e sentem do mesmo modo que os que estão no mundo.

 

 

Atualização: Janeiro, 2006 - igreja@novaigreja.com.br

fazer com que se veja assim é "abrir os olhos", como foi feito ao moço de Eliseu, do qual se lê:

"Orando, Eliseu disse: Jehovah, abre, peço-Te, os seus olhos para que veja; e abrindo Jehovah os olhos do seu moço, viu e eis que o monte estava cheio de cavalos e carros de fogo, em redor de Eliseu" (II Re. 6:17).

77. Espíritos probos, com quem também falei sobre esse assunto, lastimaram de coração que exista na igreja tal ignorância sobre o estado do céu e sobre os espíritos e os anjos; e, indignados, diziam que eu enfaticamente dissesse que eles não são mentes sem forma nem sopros etéreos, mas são homens em efígie e vêem, ouvem e sentem do mesmo modo que os que estão no mundo.

 

 

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